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André Simões

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O eu-lírico feminino em Chico Buarque

Na semana passada, ouvi pela milionésima vez que Chico Buarque “entende a alma feminina” – uma garota me disse isso enquanto escutava a canção “Tatuagem”. Todos sabemos que é um tremendo lugar-comum esse negócio de ligar a alma feminina ao Chico. Uma questão interessante seria descobrir quando se passou a fazer essa relação; qual o primeiro registro, na mídia ou na academia, de alguém usando a ideia.

Tal trabalho exigiria uma pesquisa historiográfica rigorosa, demandaria tempo. Mas mesmo somente utilizando alguns poucos fatos notórios, já podemos lançar luz sobre questões que não vêm sendo adequadamente debatidas quando o assunto é o eu-lírico feminino na obra de Chico Buarque – e na canção brasileira, de maneira mais ampla.

Nos Estados Unidos, todos os melhores letristas homens escreveram abundantemente no feminino. Vamos citar aí, para fins de exemplo, entre tantos que poderiam ser listados, Cole Porter, Ira Gershwin, Irving Berlin, Lorenz Hart e Stephen Sondheim. No Brasil, a associação imediata vem sempre e unicamente com Chico Buarque, embora consigamos pescar alguns outros exemplos pingados de canções femininas escritas por homens. O que acontece? Os americanos seriam privilegiados ao ter compositores mais sensíveis, que entendem como se sente uma mulher?

A questão, quero acreditar, é outra. O cancioneiro americano se estabeleceu graças a musicais para teatro e cinema. Os letristas eram obrigados a usar o feminino, pois escreviam para personagens femininas – simples assim. E daí surgiram coisinhas como “My Funny Valentine”, “Bewitched”, “The Man I Love”, “Someone to Watch Over Me” e “Love for Sale” – para ficar apenas nas que todo mundo conhece, ou deveria conhecer.

No Brasil, a tradição se formou de maneira diferente: compositores escreviam suas canções para cantores de rádio, que poderiam ser homens ou mulheres. É interessante notar que, mesmo entre nossas letristas mulheres, o eu-lírico feminino claro e inequívoco não era comum. Em “Castigo”, de Dolores Duran, tradicionalmente o intérprete masculino canta “Eu não seria este ser que chora”, e o feminino, “Eu não seria esta mulher que chora”.

Se podemos estabelecer um marco para uma mudança de uso do eu-lírico feminino na canção brasileira, devemos lembrar da peça “Calabar – O Elogio da Traição” (1972/1973), de Chico Buarque e Ruy Guerra, com cinco canções femininas. A partir daí, Chico passaria a compor muito frequentemente no eu-lírico feminino, e na maioria absoluta das vezes em canções para teatro ou cinema.

O que quero observar é que, se Chico é exceção entre os compositores brasileiros ao escrever muito no feminino, também é exceção ao ter grande parte de sua obra escrita “sob encomenda” – como já observou em diversas entrevistas. O meio, neste caso, proporciona a situação adequada para que o compositor sensível possa se expressar de diversas maneiras, inclusive no eu-lírico feminino.

Se muito se fala da influência dos compositores da Broadway e de Hollywood na obra de músicos brasileiros de uma geração anterior – Tom Jobim, acima de todos –, quase nunca se relaciona Chico Buarque a eles. Por quê? A hipótese mais plausível, para mim, está relacionada ao fato de Chico fazer parte de uma geração de artistas muito presente no combate ao regime de 64. Tornava-se vexatória qualquer relação com americanos “imperialistas”.

Mas, passados tantos anos, creio que não haver mais constrangimento em notar que, entre outros fatores, pela multiplicidade de gêneros musicais adotados, pelo rimário virtuosístico, pela fluidez com que mistura referências eruditas e de cultura pop e, por que não?, pela naturalidade no eu-lírico feminino, Chico Buarque está muito mais próximo de um Cole Porter do que de Noel Rosa, de quem tantas vezes foi identificado como sucessor.

  • por: André Simões
  • Postado em: 22 de maio de 2012 às 14:30
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Caminhada

Na videolocadora, nome obsoleto para um tipo de empresa caindo na obsolescência, encontro um colega que não via há tempos. Ele me pergunta o que estou procurando. Considero a questão meio indiscreta, isso não é pergunta que se faça em videolocadoras, farmácias ou filas de banco. Em nome dos velhos tempos, suspiro e resolvo responder: “Arca Russa”. Não sei se devo buscar em “Cinema europeu e oriental”, “História”, “Documentário”, “Drama”, por isso a demora na procura. Mas não deixa de ser um prazer ficar ali fuçando nos títulos.

Muito naturalmente, ele me pergunta por que eu não peço ajuda a algum atendente. Com mais naturalidade ainda, respondo que pedir ajuda ao funcionário seria trapacear, toda a graça do negócio está em achar o filme você mesmo. Ele me diz “pode crer”. Já havia tolerado sua indiscrição anterior, mas agora não posso mais me conter.

– Você não tem o direito de usar o “pode crer” comigo! Eu inventei o “pode crer”!

Percebi que, quando alguém fala algo muito estúpido ou sem sentido (“se você parar pra pensar, a ditadura foi boa”, “João Gilberto é invenção da mídia”, “ninguém sério ainda usa verde”), não vale a pena discutir: se a pessoa teve a coragem de compartilhar, em voz alta, tamanhas preciosidades, não serão simples argumentos que a farão mudar de ideia.

A solução é entrar no módulo “pode crer”, no qual, sem o confronto tão estimulante aos arroubos verbais, seu interlocutor por si próprio deixa de abrir a boca. Em casos agudos, podem ser alternados “pode crer” e “bem isso” – a razão ideal é de três “pode crer” para um “bem isso”. E agora, aquele camarada, depois de invadir minha intimidade, quer me dar um “pode crer”. Que desfeita.

Encontro o filme (havia uma prateleira escondida só para cinema russo, olha só, ele nunca entenderá esse prazer) e saio sem me despedir. Está chovendo. Durante muito tempo evitei os guarda-chuvas, por considerá-los pouco úteis – se está chovendo pouco, aguento o tranco; se chove muito, vou me molhar de qualquer jeito – e por ter medo daquela história de que são instrumentos alienígenas: todo mundo já perdeu alguns guarda-chuvas, mas nunca topamos com os alheios dando sopa. Onde eles vão parar?

Mas após algumas experiências traumatizantes, deixei de lado a rebeldia juvenil e passei a carregar um (adquirido por sete reais) na mochila. É a primeira vez que vou usá-lo. Por ironia divina – e por minha mesquinharia –, está quebrado, com seu pano pendendo comicamente sobre meu ombro. Não me importo, agora seguirei com ele até o fim. A moça passa com um guarda-chuva mais digno e não contém o riso ante o desconhecido molhado. Eu mereço.

Paro no supermercado e pago a compra com cartão de crédito. A caixa me dá o troco, agradeço e sigo. Fico com o dinheiro na mão, sentindo que alguma coisa está estranha. Demoro quase um minuto até perceber que aquela grana não pode ser minha. Volto à caixa e devolvo as notas que me foram dadas indevidamente (“eu paguei com cartão de crédito, moça”). Ela me cobre de elogios, ah se todo mundo fosse assim, ainda bem que eu voltei, senão ela teria prejuízo. Respondo simplesmente que minha mãe me ensinou dessa maneira, amanhã é dia das mães, não deixa de ser uma discreta homenagem, assim penso.

Orgulhoso, volto à rua e já está sol. Uma senhora me aborda, diz que precisa de dinheiro para completar a passagem para não sei onde. Bruscamente, digo que não tenho nada e continuo andando.

  • por: André Simões
  • Postado em: 15 de maio de 2012 às 13:56
  • Categorias: Crônicas
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Fotografia num fundo de gaveta

Incêndios, raios, cães raivosos, assaltantes, estupradores, assassinos, políticos corruptos e operadores de telemarketing: com um rol desses de ameaças, bem concretas, rondando por aí, não há muito tempo para se perder pensando em coisas de outro mundo. Este já é bastante perigoso.

É o que costumo dizer para a Lívia, minha namorada é bastante impressionável quanto a assuntos místicos, costuma assustar-se facilmente. E embora seja só uma frase de efeito, realmente boto fé na ideia central da coisa toda, não acredito na hipótese de ser atingido por algo que esteja além dos sentidos.

Mas não acreditar – uma escolha particular e racional – não significa necessariamente deixar de lado todas as dúvidas, estar imune ao medo. E certas situações, algumas coincidências que nos pegam despreparados, desafiam nosso bem cultivado materialismo.

 * * *

Este apartamento que eu, o Daniel e o Borga pegamos sempre nos pareceu um tanto peculiar. A princípio, por uma razão bastante positiva: o preço de aluguel bem abaixo dos imóveis semelhantes no mesmo bairro.

Não demorou, descobrimos inconveniências na mobília que herdamos, algumas bastante inusitadas: entre os tradicionais chuveiro dando choque, gavetas emperradas, teias de aranha imemoriais e cortinas de terrível mau gosto, encontramos pequenos bonecos, colares com contas estranhas, velas, broches e um cofre – que me custou oitenta pilas para ser removido de meu quarto até a sala.

Desfizemo-nos do material que não nos interessava (no caso de ter massa e volume passíveis de descarte), fizemos piadas e especulações sobre a profissão dos antigos locatários e a vida continuou.

Na semana passada, a diarista veio aqui e minha Gramática sumiu. Depois saberia que os dois fatos não estavam relacionados (a Gramática estava em minha mochila o tempo todo), mas como estava atrasado para dar aula, pus-me a forçar as portas dos móveis velhos, pensando ser o ambiente mais adequado para a Elisângela esconder meu livro.

Aqui numa gaveta do armário desta mesma sala em que agora escrevo, encontrei algo mais impactante do que as normas de nossa língua portuguesa: uma fotografia de uma moça morta, deitada em seu caixão aberto.

* * *                                                             

Lembro-me da mãe contando quando descobriu que minha avó guardou sapatinhos e um sabonete com o qual deu banho numa outra filha, que morreu ainda bebê. A mente humana cria suas maneiras de lidar com a dor; para quem está de fora, pode parecer muito louco.

Mas aquilo na gaveta era de uma morbidez extremada, não sabia como lidar com a fotografia. Fui mostrar ao Daniel que, em seu pragmatismo de físico, não deixou de soltar umas cinco interjeições chulas e dar três passos para trás. Saber da moça morta ali na gaveta tornaria nossa permanência na casa algo muito tenso, mas como simplesmente jogar fora um negócio daqueles? Arrepios.

O Borga chegou no meio da discussão e não pareceu tão chocado assim quando contamos da descoberta. Soltou um “é, o pessoal de antes da gente era estranho mesmo” e mudou de assunto, estava mais preocupado com a louça acumulada. A namorada nova viria pela primeira vez, ele queria causar boa impressão.

Como não demos muita atenção à namorada nova, muito menos à louça, imersos que estávamos em falar palavrões e andar de um lado para o outro, o Borga teve de se mostrar voluntarioso. Pegou a foto e, sem deitar os olhos nela, rasgou-a, atirou-a na privada e deu descarga.

– Podemos lavar a louça agora?

* * *

A nova namorada jantou aqui, gente boa, simpática – certamente mais sociável do que o esperado para o Borga. Mas não consegui me entrosar muito com ela, sei lá. O Daniel também não pareceu confortável. Não ousei falar com ele, seria complicado demais, mas posso apostar que temos os mesmos motivos. Há algo terrivelmente familiar na fisionomia da moça.

  • por: André Simões
  • Postado em: 8 de maio de 2012 às 14:15
  • Categorias: Crônicas
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Eleição para síndico

Assim como é injusto falar em “não sabe nem fritar um ovo” para indicar o mau cozinheiro (conseguir um belo ovo frito é uma arte), não entendo quando dizem “esse aí não se elege nem para síndico” querendo dar  um exemplo de disputa fácil. As votações para síndico costumam ser acirradíssimas – e divertidas –, sabe bem todo aquele que já participou de uma assembleia condominial. Haja vista as parcas vantagens financeiras e as poucas possibilidades de negociatas e conchavos, acredito que ser síndico até poderia ser exigência curricular para aqueles que concorrem a cargos no Executivo e Legislativo.

Seres abnegados, os nossos síndicos. Alguma coisa que me escapa deve servir-lhes de motivação. Não é possível que só a isenção do pagamento de condomínio compense tanta encheção de saco, as ligações de madrugada, as contas e os planejamentos, a velhinha do 33 querendo saber quando o jardim será arrumado.

Mas alguns fazem mesmo questão de ganhar a eleição para síndico e, lá estando, apegam-se ao cargo com unhas e dentes. Dão-se até ao direito de exibir sintomas típicos da síndrome de pequeno poder, com demonstrações esporádicas de arrogância injustificada, sadismo autoritário e sarcasmo ao tratar com pessoas. Como a maioria absoluta tem horror a pensar em assumir a bronca, os mesmos dois ou três de cada prédio costumam se revezar no cargo por gerações. Ruim com eles, pior sem eles; ou, para citar sábio ditado que aprendi com minha avó, deve evitar-se a concretização do “depois de mim virá quem bom de mim fará”. Um pouco de conservadorismo pode ser bom nestas horas.

Sou novo aqui no meu prédio. Parece que o síndico é síndico há 15 mil anos, deixando como marca de gestão vidros trincados e uma taxa de condomínio muito abaixo da média. Ele está tentando mais uma reeleição, e admito que sou fã dessa plataforma eleitoral.

Mas há uma dona querendo romper sua hegemonia, passou de porta em porta pedindo votos, entregando panfletos. Elogiei com sinceridade sua disposição, mesmo sem prometer-lhe meu voto.

A primeira assembleia foi um arraso. Prometeu mudanças, reformas, revolução, coleta seletiva, desenvolvimento sustentável – e antes que a velhinha do 33 pudesse fazer sua habitual intervenção, expôs apaixonadamente um plano detalhado de melhorias no jardim. Aplausos, suspiros, sorrisos.

O velho síndico se fez tímido, mencionou continuidade do trabalho, disse que tem bastante tempo para se dedicar às tarefas do prédio. E até nisso foi humilhado, com o discurso da dona assumindo tons surreais.

– Bem, tempo é o que não me falta, não tenho filhos, não trabalho, nunca trabalhei, não tenho nada a fazer além de empenhar corpo e alma para fazer deste um condomínio do qual possamos nos orgulhar – nova aclamação por sua espirituosidade, gargalhadas dos condôminos.

Até eu tendi a ficar com a dona, mas aí reparei que o velho síndico, há tempos egresso de seu Pará, estava com uma camisa do Paysandu. Nosso país admite corruptos, corruptores, estelionatários, estupradores e matricidas, mas o vira-casaca não é perdoado. O velho síndico sabe que está preso ao Paysandu até o fim de seus dias – mas nada o obrigava também a ficar expondo publicamente, neste frio sul do país, seu afeto pelo Papão da Curuzu. Alguém com tamanha lealdade merece reconhecimento. Terá meu voto.

E quer saber? A dona, apesar da eloquência, trata os empregados do prédio por “querido” quando está lhes passando vexatórias reprimendas públicas. Reparei nisso, outros devem ter reparado também. E mesmo com a apatia no show preliminar, nosso velho síndico ganha mais uma, aposto. Os vidros trincados não importam tanto assim.

  • por: André Simões
  • Postado em: 1 de maio de 2012 às 14:05
  • Categorias: Crônicas
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Catedral, crucifixos, parada gay e factoides

Acredito que ainda esteja em tempo de dar meus dois centavos sobre o assunto: na semana passada, Maringá virou pauta nacional por causa de um cartaz anunciando sua parada LGBT, popularmente conhecida como parada gay. A ilustração mostra a Catedral da cidade sendo danificada por um raio de luz solar que, ao atravessar a igreja, transforma-se num arco-íris. A criadora do desenho se disse inspirada pela famosa capa do álbum “The Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd.

Houve gente indignada. A Igreja Católica, como era de se esperar, chiou. O arcebispo de Maringá, dom Anuar Battisti, escreveu em seu blog que a Catedral, “antes de símbolo de Maringá, é um símbolo religioso da fé da maioria dos maringaenses”. Por essa razão, colocando-se como representante de todos os que se viram ofendidos em sua fé, solicitou a retirada do cartaz de todos os meios de comunicação – pedido que, posteriormente, o próprio arcebispo considerou inócuo, haja vista o poder propagador da internet.

O argumento de dom Anuar se torna estranho quando lembrada outra polêmica recente envolvendo a Igreja. Um argumento muito constante entre aqueles que defendem a permanência de símbolos religiosos em escolas, tribunais e repartições públicas é justamente o fato de o crucifixo já haver transcendido a simbologia cristã. Ora, por que então a Catedral de Maringá, cartão-postal óbvio da cidade, também não pode ser representada sem levar em conta a religiosidade?

Essa linha de raciocínio é coerente. Mas se ater a ela para discutir a questão pontual do cartaz da parada gay seria cometer a canalhice muito comum de buscar a desqualificação do argumentador, não do argumento. Quem não se sente representado pelo catolicismo tem – sim! – o direito de incomodar-se ao ver um crucifixo num tribunal e pode cobrar pela laicidade do Estado; por sua vez, é lógico que os católicos se zanguem ao ver um símbolo tão solene sendo tratado de maneira, mais do que irreverente, agressiva.

A comparação com a delicada capa do álbum soa como piada: no cartaz, vemos a Catedral sendo explodida por um arco-íris – símbolo associado ao movimento gay. O fato de a autora da arte declarar-se completamente desprovida de intenções bélicas é irrelevante: impossível que não tenha ocorrido aos organizadores do evento que a divulgação de material dessa natureza geraria celeuma tremenda. Alguém deu respaldo ao desenho e queria ver o circo pegando fogo.

O que poderia passar como mera provocação pueril ganha contornos mais significativos quando se atenta para as sabidas intenções eleitorais de figuras de destaque do movimento gay de Maringá. Afinal, o que contribui para a aceitação do diverso e do plural criar briga de maneira tão rasa com os setores mais conservadores da sociedade? Pouco ou nada. Em compensação, figuras de referências do movimento ganham exposição gratuita na mídia – nesse sentido, o episódio do cartaz foi um total sucesso, parabéns aos organizadores.

Há outros indícios da pouca seriedade dessa discussão toda. Bastou dom Anuar declarar, vagamente, a possibilidade (sem prazos) de um dia, quem sabe, ser criada uma Pastoral da Diversidade em Maringá para que tudo fosse dado como belo e resolvido. Qual bom político, o sr. Luiz Modesto, editor do site Maringay, deu a mão ao arcebispo e se disse “encantado”.

Modesto acreditou mesmo nessa ideia? É homem inteligente e sem espaço para ingenuidade: sabe bem que uma Pastoral da Diversidade não está nos planos da Igreja Católica para os próximos cem anos. Mas a balbúrdia já estava feita, não mais convinha ficar batendo de frente com figura tão respeitada e querida na cidade, não é mesmo? E assim a reflexão acerca de questões fundamentais continua sendo preterida em favor de factoides. Pena.

  • por: André Simões
  • Postado em: 24 de abril de 2012 às 13:51
  • Categorias: Crônicas
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Treze à mesa

Estou preparando um jantar aqui em casa. Nem preciso me preocupar com o cardápio, pois o prato principal serão os próprios comensais: doze, mais este anfitrião que vos escreve, formando treze à mesa. Todos personalidades fascinantes. Eis os convidados:

João Roberto Campos, notório pecuarista e organizador de rodeios. Gosta de corridas de cavalos e é um virtuose do berrante, conseguindo reproduzir no prosaico instrumento alguns concertos de Paganini. Acredita que uma boa surra tem caráter pedagógico na educação dos filhos – ele próprio tem sete;

Tati Mesquita, militante vegana e publicitária. Distingue apenas pelo cheiro 83 variedades de alface. Ameaçou de morte um camarada que chamou um gato de “bichano”, termo pejorativo. Atinge orgasmos espontâneos dependendo do ângulo que a luz solar incide sobre seu rosto;

Rogério Vasconcelos, viúvo de um coronel, vive da pensão. Orgulha-se de sua coleção de armas de fogo e se ressente de que a Revolução de 64 tenha sido tão branda. Tem um estupendo repertório de truques com baralho;

Laura Barcelos, comunista, ateia e fumante. Acredita na revolução permanente e na queda inevitável das instituições burguesas. Para ela, a sexualidade deve ser totalmente livre. É anorgásmica. Secretamente, admira o poder comunicador de Silvio Santos;

Francisco Mota, ex-comunista, ex-fumante e ex-ateu. Depois de alcançar a Libertação, desenvolveu alergia a torresmo. Excelente imitador de Jacó, o personagem bíblico. Quem conheceu os dois diz que a semelhança é mesmo impressionante;

Mateus Freitas, guitarrista de heavy metal viciado em miojo sabor galinha caipira. Tem mais de 90% do corpo tatuado. Como a arte foi feita na cor de sua pele, os desenhos não são visíveis;

Julio Sampaio, pós-doutor em linguística, escreveu tese de 1.200 páginas sobre objeto direto preposicionado. Sofre de halitose. Quando bêbado, erra a conjugação do verbo “intervir”. Morreria pelo Corinthians;

Maurinho Machado, artista plástico popular, tem o sonho de pichar o Museu do Ipiranga com patrocínio público. Bons contatos seus garantem que o dia está chegando. Membro destacado da Mancha Verde, só come caviar beluga;

Sueli Matias, pia senhora, professora aposentada. Defende a pena de morte para todos os degenerados e quebra pratos quando ouve o termo “reforma agrária”. Super jeitosa com crianças, faz uma torta de morangos que é uma delícia;

Ivo Tavares, traficante adepto dos princípios do desenvolvimento sustentável. Sua maconha é orgânica e seus cachimbos para crack são feitos com alumínio reciclado. Recebeu distinções de várias ONGs;

Ana Hammer, atriz pornô e cantora lírica. Atingiu perfeitamente os agudos da ária da Rainha da Noite durante a gravação de “Deu ao Diabo na Terra do Sol”, sucesso cult. Conservadora, faz campanha contra o ensino do evolucionismo nas escolas;

João Brasil, católico fervoroso com um pezinho no candomblé. Fã do governo Médici, declara-se de esquerda. Vive indignado com a corrupção no Planalto Central. Altera notas fiscais. Não se sabe exatamente do que vive.

Quanto a mim, só ficarei calado, observando e me divertindo. Quando o ritual antropofágico começar, retiro-me para meu quarto com um pote de sorvete. E vejo um filme do Fred Astaire.

  • por: André Simões
  • Postado em: 17 de abril de 2012 às 16:54
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A cabra do Seu Joaquim

Ah, essa minha sinceridade excessiva, preciso trabalhar isso. Uma estudante de jornalismo veio outro dia me entrevistar sobre meu trabalho, quase me dei ao luxo de ficar envaidecido. Antes que pudesse ajeitar o cabelo e assumir a pose de popstar que ensaiei em frente ao espelho, ela resolveu me perguntar sobre a leitura mais marcante da minha vida – danou-se.

Não consegui dissimular, assim como a mocinha não escondeu a decepção com minha resposta. Deveria estar esperando “Ulisses”, “Em Busca do Tempo Perdido”, “A Montanha Mágica”, algum livro obscuro de autor com mais de 90% do nome formado por consoantes. Mas o que citei foi “A Cabra do Seu Joaquim,” porque não sei mentir, simples assim. Ela deu um sorriso, muito obrigado, e antes de sair prometeu que ligaria se precisasse de mais alguma coisa. Por um instante pensei que estava pedindo emprego para a menina, mas não era o caso.

Como esquecer a cabra do Seu Joaquim? Aquele livro foi a única coisa que ganhei em sorteio na vida, ia pelos meus sete ou oito anos. Nem por isso fiquei feliz: era alguma feira cultural da escola, no final deram prêmios, um colega ganhou um kit de mágicas, com varinha e tudo!, e eu fiquei com a cabra do Joaquim. Eu achava (continuo achando) o ilusionismo a arte suprema, como não ter inveja? Cabra do Seu Joaquim, francamente, do alto de minhas oito primaveras achava aquele universo bucólico muito pouco sofisticado.

O livro ficou largado por semanas, nem lembro por que resolvi dar uma chance para aquelas minguadas páginas. Quando o fiz, no entanto, o terrível e misterioso enredo entrou em minha mente para nunca mais sair, há de me acompanhar até o fim dos dias.

Seu Joaquim tem um monte de cabras. Com uma delas, nascida em sua propriedade, entende-se particularmente bem. Rola uma grande empatia, comunicação não-verbal afiadíssima. A cabra sente-se amada, querida, mas os limites do cercado a incomodam com o passar do tempo. Altamente sensível, Joaquim percebe a aflição de seu bichinho. Apenas com o olhar, transmite sua advertência à cabra afinal anônima, porém distinta em seus cuidados e afeição: “não fuja do cercado, ou você será comida pelo lobo”.

A cabra respeita a ascendência de seu proprietário, mas a chama em seu peito não se extingue. Joaquim se sente impotente, só conseguindo responder com olhares cada vez mais intensos e repressores. Receia que o destino já esteja traçado. O bicho sabe que o velho tem razão em suas preocupações, mas não pode refrear seus anseios de liberdade. Quer a imensidão dos verdes prados.

Numa madrugada, foge, afinal. Passa o dia inteiro gozando a imensidão do universo, sente-se imensamente feliz, quase humana. Ao crepúsculo, numa cena ilustrada com requintes no livro, o inevitável lobo surge e a ataca. Sangue na grama. A cabra agoniza lentamente e morre em dúvida, sem saber se tudo valeu a pena.

Qual é o ponto em direcionar uma história dessas a crianças? Qual é, afinal, a moral da fábula? Quem foge de casa é comido pelo lobo? Levantes devem ser respondidos com derramamento de sangue? Ou, analisando por outro ponto de vista, tudo vale a pena se a alma não é pequena? Carpe diem? Live fast, die young?

Nem os porcos de Orwell, nem o corvo de Poe, as pombas de Raimundo Correia ou a raposa de Fontaine: o animal mais simbólico sempre me será a cabra – de seu Joaquim.

  • por: André Simões
  • Postado em: 10 de abril de 2012 às 12:31
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Elogio desinteressado

Por quê? Porque eu gosto do seu nariz, dos seus pés e do seu cotovelo. Você não sabe, não teria como saber até agora, mas enquanto dorme posso passar longos minutos observando seu pescoço – só seu pescoço. E passar então a outra área de seu corpo e me parabenizar pelo objeto de estudo à minha frente, possibilidades infinitas neste jogo um pouco egoísta: você dorme e não sabe o que acontece. Mas às vezes se revira de súbito, acorda por um instante mínimo e me vê. Sempre sorri. Acho que se sente protegida. Então me sinto autorizado a continuar.

É uma das razões, entre tantas outras. Se você nunca saísse de vista, eu poderia continuar as enumerando, sem parar, pelo resto da vida. A inspiração estaria garantida, pois sempre há novidades em cada traço que penso conhecer de cor – ledo e doce engano.

E gosto de lembrar como ficamos pela primeira vez, se fosse inventar um roteiro não conseguiria fazê-lo tão divertido. Sabe, acho essas coisas importantes, boas histórias para contar à descendência. E raízes fortes geram bons frutos, né? Ahn, não sei se essa metáfora biológica está muito correta… Mas algo que começou assim não pode dar errado, céus.

Combinamos no jeito que discordamos. Você sempre está com muito frio ou com muito calor, que menina termicamente difícil de agradar. E adoro como você consegue me prender falando de um assunto que absolutamente não me interessa, mas com uma paixão tal que… Seu entusiasmo torna atraente qualquer assunto, direito previdenciário, geopolítica da África do Sul, as enormes diferenças entre rãs, sapos e pererecas, como as pessoas conseguem se confundir?

Acho que são seus valores, sua busca pelo justo, sua determinação em seguir o que acha correto, sua absoluta confiança em mim. Essas coisas nos fazem ter certeza de que fizemos a escolha perfeita – ou de que a escolha perfeita nos veio por raro presente do destino, ele não costuma ser generoso gratuitamente. Ah sim, estamos juntos para além do sexo e da música, mas inclusive nestes dois quesitos básicos. E se você realmente não gosta de filmes noir dos anos 50, consegue fingir muito bem, qualquer das hipóteses é admirável. Eu desejo, admiro, tenho orgulho de você.

Raro dom de um conseguir completar a história nonsense do outro, antes não achávamos companhia adequada para nossos devaneios, nosso peculiar senso de humor. Rara felicidade de encontrar conforto em palavras simples que qualquer um poderia dizer ou no abraço apertado que absolutamente não é invenção nossa, mas que nos acolhe tão bem – porque somos eu e você, porque somos um casal. E por último, mas não menos importante, e com toda a solenidade, nossa, você é linda linda tão linda.

Isso tudo posto, acho que fiz a lição de casa direitinho, será que você me ajuda com a roupa esta semana? Você sabe que não consigo entender aquela máquina, um ferro para mim é tão misterioso quanto física quântica. Quebra essa, vai.

  • por: André Simões
  • Postado em: 3 de abril de 2012 às 13:01
  • Categorias: Crônicas
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Março de 2007

E depois do filme, já era tarde, chamou-me para subir e tomar um café. Ela sabia muito bem que eu não bebia café, presumi que não fosse um convite literal. Mas me serviu uma bebida quente assim que entramos, um chá esquisito, desses que as pessoas cool gostam de tomar. Sem saquinhos, sem pó em caixinha, só ferveu umas folhas em água e me passou o negócio. Fiquei com vergonha de pedir açúcar, logo depois estava envergonhado por ter vergonha. Por que assim tenso, por que me preocupar em passar boa impressão?

De sua parte, não estava nem um pouco nervosa, depois de terminar o chá horroroso se esparramou no sofá, tirou os sapatos, as meias, uma pose desmazelada que ficaria deprimente em qualquer outra mulher – não nela. Abriu um vinho mais ou menos e me serviu, desta vez sem a preocupação de perguntar se eu queria.

Falou da mãe hipocondríaca, da faculdade que estava terminando e não sabia aonde aquilo tudo ia dar, da relação com o namorado que agora estava em Ouro Preto (“ele me conhece melhor do que ninguém, isso assusta”), de como o show de retorno dos Mutantes havia sido incrível apesar do Arnaldo “meio lesado”. Eventualmente, ao longo das garrafas de vinho, eu devo ter falado alguma coisa, mas não me recordo. Só me lembro de estar lá, babando com suas superficialidades deliciosas.

Falou em como adorava brigadeiro, mas comia muito de vez em quando porque odiava se sentir gordinha, não tinha coragem de colocar nenhuma roupa “mais assim”. Já quando se sentia gostosa, não veria problemas em sair pelada na rua. Não consegui reprimir a pergunta óbvia, como se sentia agora. “Estou ok.” Começou um episódio de Friends e apoiou a cabeça em meu ombro para ver.

Sem me explicar, perguntei se aquilo era certo, ela me entendeu na hora. “Larga mão, meu namorado não se importa de eu ter amigos, posso garantir que ele tem várias. O que estamos fazendo de errado? É a sua nova namoradinha que te preocupa?” Ignorei o “nova namoradinha” e apenas sorri um “não estamos fazendo nada de errado, é verdade” no tom mais cínico que pude. Ela gostava de brincar.

Perguntou o que eu daria à namorada de aniversário e em seguida tentou adivinhar, “vai ter buquê de rosas vermelhas?”. Gaguejei qualquer coisa, não deu tempo de esconder que aquele era realmente meu plano criativo, ela gargalhou e logo em seguida se conteve em comiseração, eu era a criatura mais ingênua do mundo. “Vocês dois formam um belo casal, pena que em seis meses não estarão mais juntos.” Fiz cara séria e disse que aquilo era extremamente ofensivo, ela ignorou e acendeu um baseado, ofereceu para mim, eu disse que era careta. Insistiu, eu disse que era caretaço. “Que bonitinho.”

Eu realmente queria ficar bravo com aquela desaforada, tinha mesmo um discurso feroz na ponta da língua, mas como se ela agora ajeita a luminária e faz caretinhas, se ela se empina para mexer na reprodução do Matisse, se ela subitamente arranca uma escova da bolsa e se penteia de madrugada?

É difícil, tento ofendê-la quando menciona qualquer coisa sobre comprar uma máquina fotográfica, “por que qualquer um acha que pode virar fotógrafo da noite para o dia?”. Ela se sai depressa, “pelo menos eu não canto!”, dá gargalhada de acordar os vizinhos, pede para eu tocar baixinho aquela do Cartola. Ela ouve de olhos fechados, bebe mais, diz que eu lembro o primeiro namorado dela, muito bom de cama. E se pendura na janela, peço para ela parar, isso me dá aflição, tenho medo de altura.

Diz que está com sono, eu me levanto para ir embora, “me coloca na cama?”. Deus, o que é isso? “Minha cara, não adianta, eu não vou te comer.” “Para com isso, nós somos amigos”, sempre com muitas risadas. Deixo-a em seu quarto, despeço-me com um beijo na testa, digo que ela é incrível. Sugere que eu poderia escrever uma crônica sobre ela. Tem certeza? “É, talvez seja melhor esperar uns cinco anos.” Sempre tive excelente memória.

  • por: André Simões
  • Postado em: 27 de março de 2012 às 12:29
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Atiraram no Mostardinha

Nos jornais, não deram nada – talvez engorde as estatísticas nos rankings de violência de fim de ano. Mas aqui no bairro não se fala noutra coisa, atiraram no Mostardinha, e é inacreditável que possam fazer isso com um camarada tão gente boa. Se atiraram no Mostarda, a barbárie atingiu mesmo todos os recônditos da Terra.

Felizmente, recupera-se bem, ao que parece, e logo estará de pé para se empanturrar do condimento que lhe deu a alcunha. Já mandam toneladas de mostarda para o hospital, mas ele ainda não pode se alimentar de algo tão forte. Calma, gente.

No começo, acharam que essa fissura do Mostardinha, nascido João Ângelo Moraes, fosse algum tipo de exibicionismo adolescente bizarro. Mas conforme a coisa foi durando, perceberam que ninguém conseguiria interpretar um personagem durante tanto tempo. E para quem convive com ele desde a infância, já parece a coisa mais natural do mundo ver mostarda com feijoada, lasanha, sorvete, café, pudim de leite. Em tudo o que ele ingere vai um pouco de mostarda, simples assim. No filtro de seu cigarro, pinga duas gotas de Maille.

O mais bacana, Mostardinha é daqueles raros casos de pessoa que realiza seus mais antigos sonhos profissionais. Formou-se agrônomo e trabalha com controle de qualidade genética de sementes de mostarda. Ou algo parecido, não entendo muito bem dessas coisas – mas enfim, faz o que gosta e ganha bem para isso.

Além do lado mais técnico da profissão, nunca deixou de pesquisar suas inusitadas misturas, e até ganhou certo reconhecimento entre nomes de destaque da gastronomia contemporânea. Manoel Beato, sommelier do Fasano, não economizou elogios para sua caipirinha de mostarda. Já a chef Helena Rizzo, do Maní, deu risada e se recusou a experimentar o bolo de chocolate com caramelo de mostarda, o que magoou nosso amigo – mas não por muito tempo, o cara não é de guardar rancor.

Seu senso de humor e sua audácia quase surreal o levaram a conquistar muita gente, a reverter situações dadas como perdidas. Pegou uma garota de programa às duas da manhã, levou-a para a sua casa e a primeira sugestão foi que ela poderia começar lavando a louça. Quando a moça surtou, ameaçou chamar o cafetão e sei lá mais o quê, Mostardinha foi se explicando calmamente. “Ué, você não disse que por cento e cinquenta faria tudo que eu pudesse sonhar? Eu recebo visita amanhã, tinha esquecido, tô precisando duma força para arrumar a casa, será que você não pode quebrar essa para mim? Eu te ajudo, é que sozinho ia ser difícil.” Resultado: a menina fez a faxina e são amigos até hoje. Mandou para o hospital um bilhete e uma folha de mostarda, muito gracioso.

Outra história. Depois de levar seguidas broncas do síndico de seu prédio por barulho fora de hora, vingou-se indo tomar satisfações quando o cara estava fazendo um churrasco num domingo à tarde. “Olha, o senhor me desculpe o incômodo, mas tive de vir até aqui, não dá, essa confusão não está me deixando dormir. Eu tô numa ressaca feroz, bebi a semana inteira, pelo menos no fim de semana tenho de descansar, né? O senhor está em outra fase da vida, não tem noção do que é levantar segunda-feira de manhã, beber, continuar bebendo até a noite e saber que no dia seguinte você estará lá bebendo de novo, no outro dia a mesma coisa e ainda no outro dia a mesma coisa. Colabora, vai?” O síndico teve um ataque de riso e hoje são parceiros de truco. Detalhe: o Mostardinha é completamente abstêmio, diz que o álcool prejudica a fruição do condimento.

Mas a maldade do mundo está corroendo a capacidade de se rir. O camarada chegou, pediu dinheiro quando o Mostardinha entrava no carro. Ouviu algo como “olha, dinheiro não tenho, mas posso te dar isto aqui”. E teve de segurar uns cinquenta sachês de mostarda nas mãos. Enfurecido, meteu duas balas no Mostardinha que, caído e sangrando (agradeçamos a Deus pela mira etílica do bandido), ainda teve presença de espírito. “Desculpa, eu sei que não era Dijon.”

Força, velho Mostarda, esperamos por você.

  • por: André Simões
  • Postado em: 20 de março de 2012 às 11:43
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Dinheiro e poder

– Que maravilha, seu José da Silva. E agora, o que pretende fazer com esse magnífico prêmio de um milhão de reais?

– Ah, eu tô muito feliz, já ajuda bastante. Vou terminar de pagar as dívidas, comprar uma casa própria pra mãe, um apartamento no Leblon pra família, uma Ferrari, mais uns carrinhos pros filhos, sustentar três amantes, promover orgias regadas a champagne e cocaína, comprar uma girafa, um chafariz, investir em ações da Petrobrás, adquirir uma fazenda no Mato Grosso, separar uma boa parte pros amigos e familiares distantes que voltarão do além, doar dez por cento pra caridade, arranjar um estoque vitalício de charutos cubanos e comer três churros com dose dupla de doce de leite.

– Que coisa linda, é o Mega Prêmio realizando sonhos!

* * *

Em dezembro último, fizeram uma aposta conjunta na redação para a Mega Sena. Não participei. Nosso grande editor Clóvis veio brincar comigo dizendo algo do tipo, “segunda-feira, vai todo mundo estar rico e você vai ficar sozinho e pobre para fechar o jornal”.

Infelizmente, a previsão não se concretizou.

Mas juro, se o pessoal tivesse ficado todo milionário e ainda me encontrasse antes de sair correndo, daria os parabéns e o meu “que bom para vocês” viria sem um pingo de arrependimento ou inveja. Imagino que deva ser difícil de acreditar numa coisa dessas, só posso dar minha palavra.

Estou sempre fora de apostas e sorteios. Não faço isso por moralismo, dogma religioso ou desapego ao dinheiro. Acho que deve ser muito bom ter grana sobrando, na verdade. Mas é o velho ditado, “easy comes, easy goes”, ganhar uma bolada desse jeito não traz a doce sensação da conquista. O ser humano se adapta facilmente a condições muito distintas, logo tomar Veuve Clicquot e morar num apartamento de cinco mil metros quadrados deixa de ser um prazer para se transformar num hábito.

O gozo do poder e da influência é muito superior ao de simplesmente ter dinheiro na conta bancária. Isso explica por que políticos já nadando em grana continuam se envolvendo em maracutaias, querendo sempre mais.

Deixa a Mega Sena para os outros. Sabe o que eu queria de verdade? Ser o cara que, uma vez na vida, inicia o coro na audiência de um determinado show pedindo uma canção específica. Ou, num evento esportivo, comanda a torcida num grito de guerra. “Juiz ladrão, porrada é solução” ou qualquer coisa assim.

Você, um zé mané qualquer perdido entre milhares de pessoas, começa a gritar palavras que uma multidão passa a repetir, hipnotizada. Por uns instantes gloriosos, o sentimento é de ser maior do que o próprio artista ou o jogo em questão. Liderar as massas. E isso absolutamente não é raridade, em todo show ou jogo de futebol algumas pessoas conseguem. Já tentei algumas vezes, mas nunca fui feliz.

Que belo papel, André. Desprezando milionários para admirar bêbados de auditório e líderes de torcida… Não adianta, estou mesmo condenado a ser pobre.

  • por: André Simões
  • Postado em: 13 de março de 2012 às 15:53
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Um cigarro antes da sobremesa

O apartamento para o qual estou me mudando tem um cofre no quarto. Um cofre. De altura, deve ter um metro. O peso, não sei estimar, mas posso garantir que é bem mais do que meus pobres braços aguentam, até mesmo para arrastá-lo – vãs tentativas. Que tipo de pessoa abandona um cofre vazio no apartamento e o deixa para novos inquilinos descapitalizados? Se eu procurar bem, acabarei achando as setes esposas do Barba Azul em algum lugar do imóvel. Um cofre, francamente, isso não me é de valia alguma. Se fosse para escolher apartamentos com itens excêntricos, bem que este poderia ter uma passagem secreta. Sempre quis uma passagem secreta, quem não quer uma passagem secreta?, elas são legais. Mesmo levando do nada ao lugar nenhum, a ideia de ela ser secreta é que traz o charme. Disposto numa passagem secreta, talvez o cofre fosse bacana. Ali, irremovível do meu quarto, é só um trambolho inconveniente.

***

Restaurantes self-service são condenados por todo mundo que diz entender alguma coisa de gastronomia. A ideia de misturar vários tipos de comida, sem critério algum, e ir amontoando num prato arroz, feijão, farofa, macarrão com molho de tomate e alguma coisa aos quatro queijos (sempre há alguma coisa aos quatro queijos) não deve parecer mesmo muito bela aos olhos da família Fasano. Mas questões estéticas à parte, os self-service existem, são práticos e nos acostumamos a eles em nossas vidas – falo aqui em nome dos que não podem apreciar os serviços da família Fasano. Isso posto, por que diabos é tão difícil encontrar um quilão aberto à noite? Há alguma lei dizendo que eles só podem funcionar em horário de almoço? Quero ir a um self-service noturno, e um que tenha gelatina verde de graça, como é de praxe nas melhores casas do gênero.

***

Andam complicando demais as nossas vidas. Deve ser algum mecanismo de compensação divina: em contraponto à telefonia celular, transações bancárias informatizadas e Internet, arranjam um jeito de dificultar o que era simples. O exemplo clássico, já muito explorado em sitcoms, são os controles remotos das televisões, cada vez mais cheios de botões e indecifráveis. Os joysticks dos videogames seguem na mesma linha. Mas me surpreendi ao perceber que mesmo longe da área da tecnologia a coisa anda embananada. Até onde me lembrava, o Jogo da Vida era uma brincadeira estúpida de tabuleiro, basicamente ir andando com um carrinho e seguir as instruções das casas. Pois bem, fui me meter a jogar isso outro dia e precisaria de uma droga dum curso de Economia para entender direito as regras – ou será que eu apenas emburreci? Só me resta mesmo o Ludo Real, aquele maravilhoso jogo em que você só precisa lançar dados e andar com seu peão. Não é exigida nenhuma inteligência, qualquer macaco tem chances iguais às suas, sem possibilidades de trapaça, não se depende de nada além da sorte. Não é poético?

***

A canção do menino Michel Teló não é tão ruim quanto querem fazer você pensar. Para desqualificá-la, prendem-se à pobreza lírica do tema. Eu pergunto: e daí? É uma música gostosinha, grudenta, presta-se ao seu intuito de fazer dançar. “A-wop bop-a loo-mop, a-lop bam-boom! Tutti Frutti, aw-rooty” também não se assemelha muito a Shakespeare e é um clássico incontestável, certo? Nada na discografia do Pearl Jam é tão bom quanto “Ai, Se Eu Te Pego”.

  • por: André Simões
  • Postado em: 6 de março de 2012 às 10:15
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Mega Papo

Em homenagem à recente cerimônia de entrega dos prêmios Oscar, apresento aqui um roteiro publicitário. Um filminho para o serviço de relacionamentos telefônico Mega Papo.

Duas patricinhas comem dogão. As roupas e o falar afetados contrastam com a tosquice do lanche. Pronunciam as frases de maneira caricatural, infantilizada, como se estivessem lendo um texto pela primeira vez.  Enquanto conversam, ensebam o dogão de maionese e ketchup e se lambuzam.

VICKY – Amiga, vou te confessar uma coisinha, ando numa vibe muito deprê. Não sei o que tenho, não consigo atrair a homarada. Tenho busto avantajado, abuso dos decotes, sou permissiva sexualmente… Mas não adianta, tô mais melancólica do que filme do Bergman depois do Rivotril.

CACAU – Ai, amiga, ficar assim dando sopa pro baixo-astral… Que coisa mais século dezenove, sai desse zeitgeist. Hoje em dia, só não arranja macho quem não quer.

VICKY – Ai, mas por que só chove na sua horta, Cacau? Afinal, vamos ser sinceras, você já está meio gasta, e até as pedras já fizeram piada sobre sua hipersudorese.

CACAU – É só ligar para o Mega Papo, bobinha. (aparece um número na tela) É entrar e, em segundos, você já conhece um monte de gente animada, dinâmica, assertiva, que adora trabalhar em grupo, tem espírito de liderança, fôlego sexual e grande capacidade cognoscitiva. Foi lá que conheci o Tião Coca-litro. Ele me conquistou citando Nietzsche no original, em inglês, um charme. Marcamos de sair e, no mesmo dia, caímos na gandaia. Foi do balacobaco.

VICKY – Mas não é perigoso? Tenho medo de marcar encontro com desconhecidos.

CACAU – Perigoso? Medo? Só se você tem medo da coisa, Vicky. E não é o que dizem por aí…

VICKY – Aiiii… Não fala assim… Tô suscetível…

CACAU – Mega Papo é tiro e queda. Ninguém fica sozinho depois de entrar. Logo na primeira vez que testei, já consegui uma vigorosa conjunção carnal.

VICKY – Aiii… Assim eu fico suscetível… Mas acho que vou arriscar e ligar. Estou precisando conhecer gente nova, ter experiências, ganhar vivência, adquirir bagagem cultural de valor inestimável e incrementar meu currículo.

CACAU – Isso mesmo, tem de ser guerreira, pró-ativa, demonstrar muita atitude e ter sempre pensamento positivo. E lembre-se (para a câmera): no fim, tudo dá certo; se não dá certo, é porque não chegou ao fim.

VICKY – Ai, assim você me mata, tô suscetível. Você sabe que não me aguento quando você cita Clarice Lispector.

CACAU – É Caio Fernando Abreu, sua antinha. E para de perder tempo comigo, entra no Mega Papo e vai tirar logo o atraso dessa periquita descolorida.

VICKY – (levanta-se num pulo, com a boca melecada de molho do dogão) Fui, cherie. Vou ser feliz e já volto.

(Cacau é deixada sentada sozinha e sorri com ar maternal, cara de “essa menina não tem jeito”. Logo depois, fica séria repentinamente, nota que Vicky deixou um resto de lanche na mesa. Dá uma espiada ao redor para ver se não tem ninguém olhando e rouba o dogão deixado pela amiga.)

CACAU(mastigando, para a câmera) Mega Papo é bom demais. É uma delícia. Liga você também, vai. (séria) E quem falar mal SÃO TUDO INVEJOSO. (rosto se abranda) Pedras no caminho? Guarde todas. Um dia farás um castelo. (Cacau pisca e o filme termina em fade-out)

  • por: André Simões
  • Postado em: 28 de fevereiro de 2012 às 09:50
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O carnaval do Correia

Eu não sei o que é mais chato: o carnaval em si ou a turma que faz questão de sair anunciando o quanto odeia o carnaval. Desconfio seriamente que esse pessoal na verdade adora a festa, é uma boa chance para demonstrarem o quanto são diferentões e inconformados com o sistema (seja lá o que for isso), além de terem a oportunidade perfeita para se reunirem em programas “alternativos” e “independentes”.

Quanto ao carnaval, creio que estou com a maioria dos brasileiros: não tenho muito pique para aglomerações orgiásticas, mas meu lado indolente folga com a possibilidade de um feriado estendido – claro que, tendo a sorte de pegar um plantão carnavalesco, esse sentido é esvaziado.

Confesso que lamento um pouco (tenho um sentimento nostálgico) o fato de o samba e as marchinhas perderem cada vez mais espaço. Sobram o axé e aquela batida acelerada executada nos desfiles das chamadas escolas de samba, cujo gênero musical não sei classificar. Mas ainda assim não perco o sono com isso, prefiro direcionar o tempo da minha notória ranzinzice para outros assuntos.

Lembrança boa do carnaval tenho quando penso no Correia, por onde será que anda? Para ele, não tinha final de Copa do Mundo, Natal, dia de eleição: a grande data cívica era a apuração do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Recebia-nos em sua casa, o mais opulento churrasco – preparado pelo Pará ou pelo Falleiros, o Correia não mexia com essas coisas, mas dava a maior força.

Talvez seja bom mencionar que o Correia nunca havia colocado os pés no Rio. E também jamais assistia aos desfiles pela TV. Isso não o impedia de torcer alucinadamente na apuração e obrigar-nos a acompanhar aquilo como fosse a mais importante coisa da galáxia.

Um detalhe curioso é que a escola para a qual Correia dirigia sua torcida variava de ano para ano. No começo, ficávamos intrigados, “Ué, Correia, torcendo pela Mocidade, você não era Imperatriz ano passado?”. Ele nem dizia nada, olhava-nos como se estivéssemos falando que a Terra é quadrada, o absurdo dos absurdos. Tivemos de nos acostumar com suas peculiaridades.

Mesmo sem ter visto as escolas, Correia se permitia pareceres técnicos e apaixonados. Nove e meio em adereços para a Mangueira? Devem estar de brincadeira, este ano conseguimos combinar luxo e leveza. Dez na bateria da Beija-Flor, com todas aquelas paradinhas que deram errado? Esta porcaria é comprada.

O diabo é que, em seu inusitado revezamento, Correia nunca conseguia acertar. Jamais viu sua escola do ano ser campeã. Lembro certa vez, a Vila Isabel perdeu por dois décimos, lágrimas escorriam de seus olhos, fiquei assustado. “O Noel merecia esta, André, o Noel merecia.” No ano seguinte, já salgueirense convicto, Correia não pôde apreciar a vitória da Vila.

Eu conheci o Correia em outros carnavais, que ficaram no passado. Lembrarei dele nesta quarta de cinzas: espero que sua escola ganhe, seja lá qual for. Ele merece.

  • por: André Simões
  • Postado em: 21 de fevereiro de 2012 às 13:29
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Resoluções tardias

Em pleno fevereiro, deve estar meio tarde para publicar minhas resoluções sobre 2012. É verdade, ainda não passamos pelo carnaval, os que têm condições dizem que o ano está por começar – não sou um desses, infelizmente.

Seria prudente, no entanto, ter mais pressa do que num ano normal, já que, dizem os entendidos e alguns produtores de Hollywood, o mundo acaba antes do próximo Réveillon. Essa postura filosófica poderia ser sintetizada em algo como “se é para fazer um monte de promessas furadas, aproveite enquanto é tempo, meu filho”.

E mesmo sabendo disso, não segui o senso comum e posterguei as resoluções. Analisando em retrospecto, minha negligência talvez venha do fato de que, deixem-me confessar algo, realmente não acredito no fim do mundo para tão logo. Mas, por favor, é só opinião minha, posso estar enganado, eu jurava que o Neymar arrasaria na final contra o Barcelona.

E mesmo se a Terra for para os ares mesmo, precisa tanto alarde? A ideia de morrer é ruim quando você para e pensa no tanto de coisas que perderá, o próximo filme do Woody Allen, nunca mais a caipirinha do Divina Dose, quem sabe o Corinthians ainda seja campeão da Libertadores, vai que resolvem abrir uma nova hamburgueria, com quem sua mulher vai ficar, e se a loira do colégio depois de anos finalmente te desse mole?

Agora, se a festa acaba para todos, se não há patamar de comparação, não há razões para ter ciúmes dos vivos e, portanto, não há motivos para sofrimento.

Além disso, apesar de alguns danos residuais, é de se pensar na economia que um apocalipsezinho proporcionaria aos cofres públicos do Rio de Janeiro, corte radical nas despesas com fogos de artifício.

O duro é saber que, mesmo com todo o tempo bônus a que me dei direito, não consigo pensar em nada além de superficialidades como resoluções de ano novo. E já que atrasei até aqui, vamos agora nos adiantando para programar o Natal (se é que chegaremos até lá).

Comprometo-me a nunca mais comer panetone. Meu ódio pelas frutas cristalizadas é antigo, mas em dezembro último vi um negócio rotulado como “panetone de doce de leite” e achei que estava ali uma boa oportunidade de me enquadrar nas tradições. Afinal, um bolinho cheio de doce de leite não poderia ser ruim, não é mesmo?

Pois bem, descobri dolorosamente que um panetone de doce de leite não é um bolo com doce de leite, é simplesmente um panetone de doce de leite e, nessa condição, tem gosto de panetone. Tal singeleza não me ocorrera. Maquiar o horrendo panetone com a maravilha que é o doce de leite equivale, para mim, a não tomar banho e depois se cobrir de perfume francês. Ter feito essa constatação (e a aceitado com serenidade) pode me tornar uma pessoa melhor neste ano, tenho fé.

E desta vez é verdade, juro, não voltarei a cair na armadilha da peça em espanhol no festival de teatro até dominar minimamente a língua. Sempre o mesmo discurso, só variam os interlocutores, “vem comigo, André, dá pra entender tranquilo, é parecido com português, os jornais tão falando maravilhas desse grupo”. E eu engulo, ano após ano, não sei bem por que, pois a única frase que consigo distinguir nas peças é “muchacho del carajo” – uma expressão recorrente na dramaturgia latino-americana, ao que me parece.

No mais, quero continuar saindo com meus amigos sem o tédio do planejamento antecipado, da permissividade vigiada, dos ligeiros desvios de normas que são suportáveis porque no final tudo se mantém sob controle. Valorizo a espontaneidade. Nada mais deprimente do que a noite do pôquer na primeira quinta-feira do mês, a terça da maconha com amônia, a sexta do adultério ao meio-dia.

  • por: André Simões
  • Postado em: 14 de fevereiro de 2012 às 10:30
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    andresimoes André Simões é jornalista e mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Londrina. Trabalha como repórter para O Diário e lançou em 2010 seu primeiro livro de crônicas, "A arte de tomar um café" (Atrito Art Editorial).

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