Uma sala de espera, uma vaga, 16 pessoas. Homens e mulheres dispostos a ganhar a preciosa cadeira que renderia R$ 12.000,00 mensais. Praticamente a solução Tabajara de suas vidas. “Meus problemas acabaram”, pensavam todos eles, já imaginando como investiriam tão gordo salário, ops!, tão gordo subsídio; a ansiedade pela entrevista os dominava e eles tentavam disfarçar o nervosismo, afinal, quem não conseguisse a vaga teria que se conformar em trabalhar por mais quatro anos.
Candidato 01:
— Muito bem, me diga por que o senhor quer ser vereador.
— Bom, meu pai foi pioneiro aqui na cidade e tem uma rua com o nome dele.
— Hum… interessante… é um bom currículo. Vamos avaliar. PRÓXIMO!
Candidato 02:
— Vejo que o senhor está um pouco nervoso; me diga: por que quer ser vereador?
— É que eu tenho muitas dívidas com um agiota e não vejo outra solução para pagá-las.
— É um bom argumento; vamos avaliar. PRÓXIMO!
Candidato 3:
— De forma sucinta, me responda: por que o senhor quer ser vereador?
— Sei lá… meu pai pediu para eu vir aqui porque o amigo dele é amigo não sei de quem, que tem influência não sei onde, e talvez possa me ajudar a ganhar as eleições.
— Um bom raciocínio, meu rapaz. Influência sempre ajuda… vamos avaliar. PRÓXIMO!
Candidato 4:
— O senhor também quer ser vereador; acha que está preparado para assumir essa importante função?
— Bom, eu acho que sim… já fui síndico do meu prédio várias vezes.
—Síndico? Uma ótima formação para o cargo; vamos avaliar. PRÓXIMO! (mais…)
Procurou no armário e encontrou, embaixo dos cobertores e das roupas de inverno, o álbum de fotografias. Olhou com atenção aquelas imagens: eram rostos do passado, sorrisos do passado, lugares do passado. Quase tudo que vivera estava ali, registrado em centenas de fotos.
Conforme folheava, recorda-se de como era há 30, há 20, há 10 anos. A mulher que via era mais jovem, menos experiente, às vezes até mais sorridente, mas não se parecia com ela. Demorou a se reconhecer, demorou a admitir que aquele passado tinha mesmo feito parte da sua vida. Mas tinha… e era passado. O passado que não voltaria mais, o passado que tinha ficado apenas no álbum de fotografias.
Era uma nova mulher, por dentro e por fora. Sentia-se mais bonita, mais viva, com mais vontade de tornar realidade seus sonhos, antes apenas guardados no coração, como se fossem velhos retratos.
A mudança causava estranheza aos olhos e ouvidos alheios, como se estivesse predestinada a passar a vida sendo do mesmo jeito. E ela não queria mais ser do mesmo jeito.
De um jeito morno, meio apagado, de um jeito em que seus desejos e anseios ficavam sufocados, esperando pela oportunidade de virem à tona. Não queria ser a mulher do “tudo bem”, “por mim”, “tanto faz”, “você que sabe”, “pode ser”.
Queria ter vez, queria ter voz. Não para se exibir, mas apenas para deixar sua essência falar mais alto, exalar pelos poros, saltar pelos olhos.
Seus valores ainda estavam lá e ecoavam fundo na sua alma; não tinha a intenção de abandoná-los, mas precisava dar um novo tom aos seus dias, um novo sabor à sua história.
Olhou de novo para o álbum de fotografia; olhou-se no espelho. Definitivamente, a mulher de outrora havia ficado por lá.
Dizem que os planos em comum podem ser um dos ingredientes para se manter uma relação afetiva em harmonia. Quando o casal une esforços, a possibilidade da concretização dos objetivos é maior. Conheço casos de homens e mulheres que, inclusive, tiveram uma ascensão financeira depois de juntarem as escovas de dente, justamente porque planejaram juntos suas conquistas.
E isso não vale apenas para as questões financeiras; o plano de ter filhos, de fazer uma viagem, de montar um negócio, de fazer um concurso público, de pintar o muro de verde, de andar de bicicleta no final da tarde… vai saber.
Planejar a dois pode ser muito bom.
Entretanto, incomoda minha alma inquieta perceber que, às vezes, as pessoas deixam de ter planos individuais. Não acho que seja saudável para a relação que o marido e a esposa, ou o noivo e a noiva, o namorado e a namorada, tenham apenas sonhos em conjunto.
Manter a individualidade na relação é importante; muitas vezes, inclusive, é o que pode salvar a história.
Individualidade é diferente de individualismo. Não defendo a tese de ambos apenas dividirem o teto e cada um cuidar dos seus afazeres, mas não tenho dúvidas de que, sem ter vida própria, acabamos sendo anulados, virando meras sombras um do outro. (mais…)
Eu não entendo porque as pessoas insistem tanto em querer comparar, por exemplo, Vinícius de Moraes e Michel Teló. Citar versos de “Garota de Ipanema” e de “Ai seu eu te pego” e fazer comparações entre as músicas é pura perda de tempo. Sabem por quê? Simplesmente porque há um abismo entre elas e, nesse sentido, não há o que comparar.
Michel Teló não é poeta; é um cantor que entoa músicas contagiantes, com letras ora chulas, ora sem pé nem cabeça, ora curiosas, mas que são ótimas para dançar. Ninguém que deseja poesia vai “beber” em Michel Teló.
Quem procura poesia vai procurar o fonte do Vinícius de Moraes. Vamos combinar que o Vinícius desejava pegar a garota de Ipanema tanto quanto a rapaziada de hoje quer pegar ao som do “Ai se eu te pego”, mas é claro que os versos da canção da MPB são infinitamente mais bonitos.
Comparar Moraes e Teló é como comparar Renato Russo e Gustavo Lima, Flávio Cavalcanti e Rodrigo Faro, Chico Anysio e Vesgo, do Pânico, Clarice Lispector e Bruna Surfistinha. Não dá e por um motivo muito simples: cada um deles, a seu modo,tinha/tem um objetivo na vida. A rameira que vendeu milhares de livros não é uma escritora; é só uma (ex)garota de programa que relatou orgias sexuais usando palavrões de porta de banheiro. Gustavo Lima não é nenhum representante das angústias sociais da sua geração; é mais um cantor topetudo que faz sucesso em shows, nas rádios e está com o bolso cheio. Rodrigo Faro está preocupado com a audiência e isso significa um vale-tudo de atrações, custe o que custar. O tal Vesgo não é um humorista; é apenas um rapaz que faz parte de uma trupe de homens e mulheres que protagonizam quadros bizarros, dos quais a meninada gosta. (mais…)
“Disseram que você ….” ; “Falaram que você…”; “Tem gente comentando que você…”; “Estão achando que você…”
Durante muito tempo, frases como essas me incomodavam demais. Não chegavam a me tirar o sono, muito menos o apetite, mas me tiravam o sossego. Imaginar que alguém pudesse estar com uma ideia equivocada a meu respeito me perturbava e eu me sentia na obrigação de esclarecer rumores, de justificar atitudes, de explicar decisões.
Mas a vida, que não possui um manual de instruções para nos livrar das enrascadas, tem me ensinado que não preciso investir meu tempo nessa busca insana de agradar às pessoas, tampouco preciso me descabelar para fazê-las entender o que se passa pela minha alma inquieta.
Seria muita hipocrisia da minha parte dizer que não me preocupo mais com o que as pessoas pensam. Acho que todos nós, de vez em quando, fazemos algo – ou deixamos de fazer – pensando exclusivamente na opinião alheia, até em detrimento à nossa.
Entretanto, estou conseguindo, aos poucos, libertar-me dessa sensação de que preciso ser um modelo de mulher, de esposa, de mãe. Estou encarando com naturalidade o fato de as pessoas se assustarem com algumas coisas que escrevo. Estou ouvindo com mais tranquilidade as críticas sobre o meu trabalho em sala de aula. Não sou mesmo unanimidade, nem quero ser.
Quem liga?
“Quem liga?” é uma expressão que define bem essa minha nova fase. Estou pensando até em fazer uns adesivos para colocar nos carros, pelo menos no meu e nos dos meus amigos que já aderiram à essa “filosofia”. (mais…)
Já usei diversas vezes por aqui a expressão “vacas magras”. A lembrança de uma vaca magra não é muito agradável, é verdade. Imaginar esse mamífero ruminante no pasto, com aquela cara de dó e com as costelas em evidência é, no mínimo, incômodo.
Mas a expressão serve bem quando queremos nos referir aos tempos em que as condições financeiras não eram as melhores; ou seja: tempos de vacas magras são aqueles períodos em que a dureza tomava conta da nossa vida.
E não tenho o mínimo pudor em relatar essas recordações; pelo contrário. Acho até que elas servem para que eu valorize minha condição atual, a qual não me alçou ao topo da pirâmide social, mas me permite ter uma vida com mais conforto.
Essa reflexão surgiu há poucos dias, em um bate-papo com colegas de trabalho, quando falávamos sobre o inverno.
Eu gosto demais dessa estação, mas confesso que me sinto meio egoísta por isso, afinal, muitas pessoas padecem nesse período, justamente por conta das vacas magras. É claro que dezenas de campanhas arrecadam agasalhos e cobertores nos meses em que a temperatura cai, mas é inevitável pensar naqueles que não têm o suficiente para se aquecer.
Pois bem.
Meus familiares e eu nunca passamos frio, nunca batemos os dentes por falta de roupas e cobertores, mas há algumas lembranças que merecem ser relatadas, embora minha mãe sempre me puxe a orelha por conta disso. “Precisa contar tudo nesse blog, menina?” (mais…)
Celulares com câmeras nem de longe são uma novidade no mundo da tecnologia. Não sei precisar há quantos anos é possível registrar tudo que nos rodeia com o aparelho, mas se tornou muito comum usá-lo para essa função.
De fato, há cenas que merecem ficar registradas e, nessas horas, tê-lo por perto ajuda a não perder a oportunidade. Seja por necessidade – um flagrante de violência, por exemplo – ou por curiosidade – alguma peripécia de um animal de estimação -, filmar pessoas e situações é uma forma de ajudar a memória no processo de armazenamento da nossa história.
Entretanto, ao ler uma reportagem sobre o show do cantor Paulo McCartney em Florianópolis, uma inquietação que já me ocupava a mente há algum tempo tomou corpo. De acordo com o repórter, os milhares de fãs que lotaram o estádio do Avaí permaneceram praticamente o tempo todo com os braços levantados, mas não com o intuito de ovacionar o ídolo, mas sim de posicionar suas câmeras.
Então, o que era para ser um momento singular, para ser vivido e curtido, tornou-se uma preocupação quase obsessiva: o melhor ângulo, o zoom na dose certa, a necessidade do enquadramento. E qual seria o objetivo de um fã do ex-Beatle ao desejar quase insanamente filmar todo o show? Guardar para a posteridade? Mostrar para os filhos e netos? Pode até ser, mas imagino que o motivo desse “momento cinegrafista amador” que tomou conta das pessoas tenha sido provar para os amigos que elas estiveram no show do Paul McCartney.
E é uma pena que isso seja assim, principalmente quando o fenômeno acontece não em um show, mas em apresentações da escola, por exemplo, quando os pais disputam quase no tapa o melhor lugar para filmar seus rebentos. (mais…)
Em 1987, o comercial da Valisere, uma famosa marca de lingerie, tornou o slogan “O primeiro sutiã a gente nunca esquece” uma febre. Protagonizado pela atriz Patrícia Luchesi, na época uma pré-adolescente, a propaganda mostrava como a peça íntima simbolizava o rito de passagem da menina para a mulher.
Apesar da minha memória prodigiosa, sinceramente não me recordo do meu primeiro sutiã; lembro-me do meu primeiro dia na escola, da minha primeira lancheira, da primeira vez em que o telefone tocou na minha casa, da minha primeira menstruação, do meu primeiro beijo, da minha primeira viagem à praia, do meu primeiro dia de trabalho, da minha estreia no tablado, do minha primeira viagem de avião, da minha primeira bicicleta (aos 35 anos) … mas nadica de nada do primeiro sutiã.
Considerando as vacas magras que habitavam minha casa na época em que o primeiro sutiã tornou-se necessário para mim, é bem capaz que ele tenha sido uma “herança” da minha irmã mais velha. Mas nada que tenha me causado grandes traumas.
Não me perguntem por que me lembrei desse comercial. Talvez porque meu caçula esteja perdendo os primeiros dentinhos e meu primogênito esteja ensaiando os primeiros namoricos. Esses ritos de passagem mexem com o coração e com a cabeça das mães. (mais…)
A cena é clássica, principalmente em filmes americanos: a mulher leva um fora do amado – ou o flagra nos braços e pernas de outra – e, debulhando-se em lágrimas em frente à televisão, devora um pote de sorvete.
Essa cena me veio à mente há pouco tempo, quando um amigo me relatou o término do seu namoro de sete anos e tudo que lhe invadia a alma naquela ocasião. Não que ele tenha se rendido ao pote de sorvete, mas conversamos bastante sobre a maneira como o homem encara o fim de uma relação.
Quando discutimos relacionamentos afetivos é prudente não generalizar; frases como “todo homem gosta de” ou “toda mulher valoriza isso” nos fazem cair no senso comum. Como rotular sentimentos tão intensos? Como dar um nome específico ao que as pessoas sentem quando decidem terminar uma história? Impossível.
De qualquer forma, mesmo fugindo das generalizações, arrisco-me a dizer que a maioria dos homens sofre menos ao final de um namoro ou casamento, mesmo quando a decisão não tenha partido deles.
Como enxerga a vida de uma maneira mais prática, é comum que a espécie masculina trabalhe a ausência da amada mais facilmente. Isso não se aplica a todos os casos, é claro, mas é difícil imaginar um homem amargurado por causa de uma mulher que o deixou; pelo menos não mais que dois ou três dias. Como bem lembrou o meu amigo, logo ele partirá para outra – ou para “outras” talvez… (mais…)
Há pouco tempo, quando me mudei de uma casa para um apartamento, ouvi várias pessoas me perguntando como tive coragem para fazer isso; considerando que essa mudança foi uma opção, não precisei de coragem, mas sim de vontade.
Da mesma forma, quando relato para alguém que meus dois filhos vieram ao mundo por meio de partos normais, ouço frases de espanto, cheias de pontos de exclamação: “Nossa, que mulher corajosa!!!”.
Mas também não precisei de coragem para passar por essas experiências; precisei de vontade. Eu escolhi o parto natural justamente porque me sobrava vontade de fugir da cesárea.
De coragem eu preciso para matar uma barata ou para dizer “não” a um flanelinha; para a maioria das coisas nesta vida, preciso mesmo é de vontade.
E o que fazer quando ela falta? O que fazer quando o problema não é a falta de coragem, mas sim de vontade? (mais…)
Faz poucos meses, quando fui buscar meu caçula mais cedo na escola, ouvi dele uma frase que, como sempre acontece a quem tem alma de cronista, provocou-me grandes reflexões.
Logo que a professora o chamou para ir embora, ele olhou para os coleguinhas e disparou: “Quem vai ficar com saudade de mim levanta a mão!”.
Sorte do meu pequeno que pelo menos uns 4 ou 5 fizeram isso; sorte dele ou minha, que economizei o valor de uma consulta ao divã em um futuro não muito distante; afinal, já imaginaram o trauma se nenhuma das crianças manifestasse que sentiria sua falta?
Brincadeiras e gracejos à parte, ver meu filho, do “alto” da sua meia dúzia de anos, testar a sua popularidade na escola me fez pensar em como às vezes estamos mesmo preocupados em ser notados.
No meu tempo de escola, embora não houvesse este rótulo, sempre fui uma aluna “popular”. E o que era ser popular nos anos 80 e 90? Naquela época, tirar boas notas e ser disciplinada em sala de aula já me conferiam esse título. E é claro que eu me orgulhava disso. (mais…)
Não sei todos os meus leitores assistiram a Shrek 2, animação do ano de 2004 e que, como tudo que se refere ao famoso ogro, fez um grande sucesso.
Na história, o protagonista, angustiado por imaginar não ser o parceiro com que sua amada sempre sonhara, sai em busca de uma solução que o transforme em humano. Com a ajuda do seu inseparável amigo Burro, ele consegue uma poção mágica e, aparentemente, resolve seu problema. Mas… ledo engano do monstro verde. A transformação acarreta uma série de confusões e, no fim das contas – e do filme -, ele acaba percebendo que a princesa Fiona, que já havia assumido seu lado “ogra”, amava-o da forma como ele era.
Animações como Shrek – e tantas outras – podem parecer apenas histórias cujo objetivo maior é entreter, mas trazem mensagens que servem para que façamos importantes reflexões sobre a nossa vida, a qual está longe de ser uma ficção com final feliz garantido.
Mudar para fazer o outro feliz pode até ser uma atitude louvável, mas não sei até que ponto pode ser saudável para uma relação. Há uma frase que diz “nada muda se eu não mudar”, ou seja, pensando assim, se o relacionamento não vai bem, um dos envolvidos precisaria mudar para reverter a situação.
No caso da história hollywoodiana, houve um erro de interpretação do personagem principal, o qual julgou que precisava ser diferente para continuar sendo amado. Entretanto, na vida que se passa fora da telona, às vezes somos “convidados” por quem amamos a mudar.
Penso que seja sempre benéfico para as relações humanas – sejam elas quais forem -, que as partes reflitam sobre as suas atitudes, sobre as suas escolhas, sobre a maneira como veem o mundo. É possível mesmo que, depois dessa reflexão, alguém perceba que precise mudar.
Mas será que sempre vale a pena investirmos em mudanças por causa de alguém? (mais…)
Em sala de aula, normalmente sou uma professora que conta até 11 antes de perder a paciência, mas se há algo que me tira do sério e me faz descer do salto – e do tablado – é quando um aluno ironiza a dor alheia.
Isso acontece, por exemplo, quando levo imagens para estimular a turma a escrever. Se mostro a foto de um morador de rua, de um nordestino que sofre com a seca ou de um etíope esquálido por causa da falta de comida, sempre há os engraçadinhos que inventam alguma piada sobre a situação.
E eu não admito que alguém se divirta com o sofrimento das pessoas; não na minha presença, pelo menos.
Pensei nesse tema porque, há poucos dias, discutindo sobre isso com os adolescentes, a frase dita por um deles mexeu comigo: “Rir dos outros faz parte da natureza humana, professora”.
Aí me lembrei da célebre cena dos finais de domingo, quando as famílias se reúnem para assistir a cenas de pessoas se machucando. Depois das quedas, dos “encontros” com o poste e dos escorregões que terminam com uma coluna no chão, gargalhadas ilustram o que meu aluno argumentou: rir dos outros faz parte da natureza humana. (mais…)
Se a presença de um colega de trabalho me incomoda, é bem possível que eu consiga evitá-lo; se a companhia de um familiar não me agrada em determinada situação, posso optar por dispensá-la; se estar perto de uma pessoa não for da minha vontade, sempre há meios para eu tentar me desvencilhar dela.
Não desejar ter alguém por perto, às vezes, é natural e não há por que nos sentirmos culpados por conta disso.
Entretanto, há uma companhia da qual jamais conseguiremos “fugir”: a nossa. E, por mais que pareça ser fácil conviver com o nosso “eu”, às vezes a relação com o espelho é bastante conflituosa.
Não estou me referindo apenas ao espelho que reflete a minha imagem e me mostra sem dó nem piedade minhas imperfeições físicas; mas também a um espelho metafórico, aquele que insiste em me jogar na cara as imperfeições da minha alma.
O relacionamento que tenho comigo mesma varia constantemente. Há dias em que adoro estar perto de mim, em que me admiro, em que acho ótimo desfrutar da minha companhia; são os dias em que penso “Puxa, Lu, tenho orgulho de você!”.
Mas também há os momentos em que acontecem grandes discussões entre mim e meu ego, o qual tem uma tendência a se inflar ao ouvir elogios. Eu vivo dizendo a ele que, mesmo com os olhos voltados para o céu, precisamos ter os pés no chão. (mais…)
Hoje, apenas me abrace. É só do seu aconchego que preciso. Não me pergunte nada, não me cobre, não me julgue; apenas me abrace. Não quero falar; não quero ouvir.
Não me venha com teorias racionais, com filosofias do mundo moderno, com frases de autoajuda. Só preciso me sentir protegida. Só preciso do teu cheiro, só preciso dos teus braços me envolvendo.
Não quero cama; quero colo. Não quero beijos; quero um olhar terno e que me diga “estou com você”. Não é o meu corpo que está cansado; é a minha alma.
Não preciso de um comprimido; preciso de carinho e atenção. Só hoje… apenas hoje… faça dos teus braços o meu ninho e me deixe adormecer entre eles.