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Prosa vã

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A penitência da saúde

Anedota conhecida conta que Jesus Cristo, condoído dos pobres, certo dia, vestiu um jaleco e veio a um posto de saúde do Brasil. Entrou no consultório e disse ao médico: “Pode ir, colega. Vim substituí-lo”. Entrou o primeiro doente, um atropelado. Arrastava-se com o apoio de duas muletas. Jesus falou: “Volte para casa, você está curado”. Ele botou as muletas embaixo do braço e saiu andando normalmente. Na recepção, outro doente quis saber: “Como é esse novo médico?” E ele, mal-humorado: “Ah, igual aos outros. Não gastou dois minutos. Não relou a mão em mim, não pediu exame, não receitou remédio nenhum”.

É uma piada, mas mostra a ideia que nosso povo faz do atendimento dado a doentes pobres. Três quartos dos brasileiros têm como única esperança o socorro oficial do SUS. Desiludidos com o que recebem, dirigem sua raiva aos profissionais que veem. Sobre estes desaba a revolta pelo descaso com a saúde em nosso meio. Não apenas nos grotões aonde não chega a mídia. Situações que nos envergonham acontecem até em metrópoles como São Paulo e Rio.

A fome é má conselheira, diz o ditado. A dor também. O sofrimento nosso ou de um ente querido dói muito, chega a revoltar. Contudo, a solução nem sempre está à mão. Depende de instâncias superiores. Senti na pele esse drama. Portador de um câncer metastático e sem plano de saúde – como, aliás, todos lá em casa – meu irmão não teve como seguir com cuidados domiciliares. Precisou de uma unidade oncológica do SUS. Sou grato a Deus e aos amigos que nos conseguiram o internamento. Quantos outros não têm essa chance e morrem à míngua?

Acomodações hospitalares para doentes terminais não são exatamente um primor de conforto. Três leitos se apertavam na pequena enfermaria. Para acompanhante, noite e dia, uma poltrona. Privacidade quase nenhuma.
Difícil ocultar ao paciente lúcido o óbito dos vizinhos. Só que os hospitais disponibilizam o que conseguem com os repasses financeiros recebidos. Como investimentos públicos em saúde são precários, 75% dos brasileiros são penalizados. Não dá para esconder, pobre aqui não tem vez. A caminho da morte, meu irmão admitiu lucidamente: “Não sou melhor do que ninguém”.

Preciso admitir: médicos e atendentes foram exemplares. Ofereceram o mesmo tratamento que os doentes conveniados recebem. O SUS presta um serviço de qualidade. Nosso sistema público de saúde é um dos melhores do mundo. Pena que funcione mal em todas as áreas. Fundamentalmente, por carência de investimentos e de gestão. “Nos países ricos, 70% dos gastos com saúde são cobertos pelo governo e somente 30% pelas famílias”.

No Brasil quase 60% cabem às famílias; pouco mais de 40%, ao setor público (dados do IBGE). A desculpa das autoridades é a de sempre: falta dinheiro. É revoltante, porque nunca falta para outras despesas. Inclusive para indecorosas rapinagens bilionárias que, dia sim, outro também, os jornais noticiam. Ninguém apura, ninguém é preso, ninguém devolve.

O tema da Campanha da Fraternidade-2012 é “Fraternidade e Saúde Pública”. Nesta Quaresma vamos refletir sobre o tema. Pesquisar soluções cidadãs para os problemas que nos afligem. Não adianta ficar com lamúrias de que nada muda. Se a gente se mexer, muda, sim. A ficha limpa nasceu da semente plantada pela CF-1996: “Fraternidade e Política”.

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  • Postado em: 10 de março de 2012 às 02:00
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Cidade ‘indormível’

Relato a experiência minha e de muitos outros: é impossível dormir. Levanto-me e vou escrever. São quatro da madrugada. Desde as duas, estive me virando na cama. Não é insônia. É o ruído que sobe da rua. Como a coisa mais normal do mundo. Vozerio e gargalhadas que furam até janela antirruído. Quem não pode comprar isolamento acústico tem que fugir para o campo? Noites de sexta e de sábado, em especial, são um suplício.

Jovens (e não jovens) varam a noite conversando e rindo alto. Danem-se os panacas que tentam descansar como gente normal. Calculo o tormento dos pobres pais de crianças pequenas. “Varam a noite” não é exagero. Quem se levanta às seis da manhã ainda os vê na calçada. Latinhas e garrafas vazias jazem descartadas diretamente no passeio ou na sarjeta. Ainda que perto se encontrem cestos de lixo. Para que perder tempo com essas bobagens? Nossas calçadas e ruas são tão espaçosas!

Não sou um ermitão confinado por engano na urbe. Nem defendo o replantio da antiga floresta cujos ruídos eram produzidos apenas por animais noctívagos. Entendo muito bem que vivemos numa cidade, não mais na selva bruta. A cada cidadão é assegurado o direito de usar os espaços públicos. Respeito a liberdade de reunião, assim como a de conversar na calçada o quanto se queira. Mas não num volume próprio de torcida de futebol.

Há limites aceitos e respeitados por pessoa minimamente civilizada. Que me perdoe quem discorda, mas desprezar normas legítimas de convivência não é atitude cidadã. Cidadão reconhece aos outros o mesmo que exige para si.

Mostrem-me um único ser normal que concorde com algazarra a lhe impedir o justo descanso. O sono é necessidade fundamental da natureza humana. Não existe a pretensa liberdade de incomodar o repouso alheio. Pelo menos da meia-noite às seis da manhã. O direito que alguns têm de se manterem acordados é o mesmo direito que os outros têm de dormir.

Não posso impedir que desocupados passem a noite inteira batendo papo na rua. Mas eles, igualmente, não podem infernizar meu repouso em horas mortas da noite. Já nem digo a partir das vinte e duas, como estabelece a lei. Alguns entendem que leis existem para serem infringidas. E para os “espertos” rirem dos tolos que as cumprem.

Nem sempre os artistas se limitam só a conversas e cachinadas estrondosas. Há também o tosco som automotivo. Idiotices musicais de qualidade discutível, golpes como de bate-estacas, composições de gosto de besouro e palavreado chulo… Às vezes, por poucos minutos.

O estrago, porém, está feito. Já acordaram meia Maringá. E lá se vai o paspalho, estupidamente feliz, azucrinar moradores de outros cantos. Isso quando não se fazem ouvir, assim do nada, berros histéricos, palavrões cabeludos, assuada gratuita, como se a rua estivesse tomada pelo surto psicótico de algum infeliz.

A querida Maringá, que brotou da mata, abriga uns riquinhos que nada produzem, mas incomodam meio mundo. São mais broncos que os machadeiros da antiga derrubada. Os pobres trabalhadores braçais projetavam um futuro radioso para os filhos. Os pernósticos moderninhos só enxergam o próprio umbigo. Cultura não é o mesmo que só dirigir carrão importado, vestir roupa de grife e ocupar vaga de universidade. A solução é se queixar aos órgãos competentes? Tudo bem. Mas adianta?

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  • Postado em: 3 de março de 2012 às 02:00
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Quaresma hoje

Quem viveu no Brasil rural do século passado lembra o pavor que a Quaresma incutia no povo simples com a ameaça do lobisomem. Havia muitas crendices, que hoje provocam risos até em crianças. Por isso, gente desinformada, às vezes, dirige críticas ferozes à prática religiosa. Nada a ver; fé é uma coisa, superstição é outra. Apesar de alguns não gostarem, religiões sérias firmam-se em bases sólidas. Não se identificam com a ignorância ou a malandragem que, infelizmente, se pode ver aqui e ali.

A Quaresma nasceu do antigo catecumenato, período de preparação ao batismo. Para receber a vida nova da Páscoa, os candidatos deviam abandonar o modo pagão de viver. Eram instados à conversão, isto é, à mudança de caminho. Esse é o sentido original de penitência. Com o passar dos séculos, o enfoque se perdeu. O povo passou a se contentar com a mera observância de ritos exteriores. No Concílio Vaticano 2° (1962-65), a Igreja do Brasil retomou a penitência como tarefa da vida real. Criou a Campanha da Fraternidade (1964), indicando situações existenciais do nosso povo, que precisam mudar. O cristão tem o dever de se tornar agente dessa mudança.

Religião se pratica com a mão na massa. “Somos responsáveis uns pelos outros” (lema da CF-1966), “somos todos irmãos” (CF-1967), temos que “crer com as mãos” (CF-1968). Penitência é nos empenharmos na erradicação de tudo o que causa sofrimento aos nossos irmãos. Nestes 49 anos, a CF focalizou água, alimento, comunicação, desemprego, ecologia, ecumenismo, educação, encarcerados, excluídos, família, fome, justiça, juventude, menores abandonados, migrantes, moradia, mulher, mundo do trabalho, negros, política, povos indígenas, segurança, vida humana, violência etc. Neste ano, o tema é saúde, preocupação da maioria dos brasileiros.

Nestes dias comenta-se a Lei da Ficha Limpa. Embora ninguém lembre, ela nasceu de iniciativa da Igreja Católica. O Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (www.mcce.org.br), que reúne 51 entidades, reconhece: “A Campanha da Fraternidade de 1996, que teve por tema ‘Fraternidade e Política’, contribuiu para aflorar a criação do MCCE, porque, posterior à campanha, a Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), órgão vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), lançou o Projeto ‘Combatendo a corrupção eleitoral’, em fevereiro de 1997”. A Igreja Católica participou na implantação das duas únicas leis de iniciativa popular (Lei 9840/1999, da compra de votos, e Lei Complementar 135/2010, da ficha limpa). Quase 90% dos milhões de assinaturas enviadas ao Congresso Nacional, nas duas oportunidades, foram recolhidas às portas das igrejas paroquiais espalhadas por todo o Brasil.

A gente não está contando vantagem. Não é praxe católica fazer publicidade. A mão esquerda não deve saber o que faz a direita (cf. Mt 6,3). Mas não custa, de vez em quando, divulgar o que alguns ignoram ou fazem questão de omitir. Reconhecemos nossos erros de ontem e de hoje. Pedimos sinceramente perdão. Mas somos responsáveis por muito mais do que Inquisição e pedofilia. A primeira se deu em contexto histórico-cultural bem diferente do atual. Quanto à segunda: entre os 20.000 padres do Brasil, foram achados menos de 40 pedófilos (nem 0,02%). É justo, a todo instante, sermos todos acusados desse crime?

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  • Postado em: 25 de fevereiro de 2012 às 02:00
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Dez anos

Cigarro é um cilindro branco com uma brasa numa ponta e um imbecil na outra. Não vi até hoje melhor definição. Fui esse imbecil durante longos anos. Com o agravante de ter começado na fase adulta, já com 26 anos. Eraldo, meu irmão, e eu crescemos vendo o pai, fumante desde menino, cumprir o delicado ritual de fazer o seu cigarro de palha. Talvez o prazer estivesse não tanto em fumar, mas em executar, sem pressa, cada etapa da operação. Aprendemos a escolher as palhas de milho que ele recortava no tamanho exato, dava uma alisada com o fio do canivete e guardava na gaveta esquerda do guarda-louça.

Alguém aí ouviu falar de guarda-louça? Ainda temos um lá em casa. A mãe dizia que era do seu tempo de recém-casada. Voltando ao pai, tornamo-nos expertos na escolha do fumo de corda que lhe agradava. Lá uma vez ou outra, trazíamos um rolete que ele olhava com desconfiança, cheirava e, depois da primeira pitada, concluía com desalento: “Ih, filho, você comprou um macaio que não dá, não. Amanhã, na volta da escola, me traga um diferente”. Em geral, porém, acertávamos na compra.

Quando, pelo final dos anos sessenta, Eraldo e eu começamos a dar as primeiras tragadas, o pai tinha abandonado o vício havia já muito tempo. Entre surpreso e aborrecido, ele comentava: “Não compreendo vocês. De crianças nunca ligaram para cigarro. Agora, homens feitos, começam a fumar?” Pela reverência, que então se era costume dedicar a pai e mãe, não fumávamos em sua presença. Mas nunca lhe escondemos nosso mau hábito.

Eraldo parou bem mais cedo. Eu continuei imbecil ainda por uma pá de anos. Comecei em 1967, quando passei a lecionar no querido Colégio Gastão Vidigal. Era professor de umas “trocentas” turmas. Em algumas, do Noturno, só estudavam adultos. Não existia, como hoje, a clara consciência sobre os malefícios do tabaco. Muita gente se iniciou, eu calculo, não por prazer, mas por mimese comportamental. Todo principiante conhece o sofrimento que provocam o engasgo e a tosse das primeiras tentativas. Mas quer se enturmar, fazer-se aceito. Foi o que aconteceu comigo.

Para não dar aos fumantes idéia de condenação e repulsa, vez por outra, eu aceitava o cigarro que me ofereciam. Com o tempo, resolvi que não me assentava bem o papel de mero filante. Passei a comprar. Era comum, naquele tempo, a piada: “Eu fumo, mas não trago (isto é, não engulo a fumaça)”. Ao que o dono do maço respondia ironicamente: “Pois devia trazer”. Outro comentário recomendava que “quem tem o vício que o sustente”. Filadores existiam às dezenas. Mas não eram bem-vistos. Preferi, por isso, não me incluir na odiosa lista.

Tenho ouvido que só se pode considerar ex-fumante quem contabilizou dez anos de completa abstinência. É o tempo que o organismo leva, como dizem, para se desintoxicar das substâncias nele lançadas pelo cidadão. Não sei se a afirmação goza de respaldo científico. Pelo sim, pelo não, estou-me parabenizando por ter atingido anteontem os primeiros dez anos contínuos de abandono do “pirulito do capeta”. Engordei alguns quilos, é verdade. Fumante, talvez estivesse mais magro. Mas, com certeza, não mais saudável.

Só uma pergunta: por anos a fio, eu recendia aquele odor enjoativo que os fumantes exalam? E os amigos suportaram sem falar nada? Ai, que vergonha! Como só eu não conseguia sentir?

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  • Postado em: 4 de fevereiro de 2012 às 02:00
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Novo ano à vista

Você, que lê, e eu, que escrevo, somos privilegiados. Ano passado, neste dia e hora, estavam vivas pessoas possivelmente melhores que nós. Hoje, não fazem parte do nosso convívio. Que misteriosa força as levou daqui, enquanto nós ficamos? A mim, tenho certeza, o Senhor concede nova chance de me tornar menos pecador. Ouvimos, a cada início de janeiro, o surrado “ano novo, vida nova”. Um ano que começa abre aos nossos passos nova estrada, que pode ser diferente da anterior, se quisermos. Entretanto, o que se dá, na maioria das vezes, é que passam os meses, termina dezembro, vira a folhinha e a vida prossegue na mesmice de sempre. E olhe lá se a gente não acaba mudando, sim, mas para pior.

É engraçado como as pessoas se repetem. Não há abertura de novo ano em que não nos venham aporrinhar as manjadas previsões de pretensos adivinhos. O papo não muda: catástrofe em país de tal continente, morte de político conhecido nacional ou internacionalmente, divórcio de conhecido artista da televisão… E por aí vai. Aos crédulos que, na antiguidade, iam consultá-los os harúspices romanos e pitonisas gregas forneciam vaticínios de interpretação vaga, nunca definida. Garantiam, assim, a veracidade das predições. O esquema prossegue imutável até os nossos dias. Amigo meu conta que conheceu na sua cidade, lá na Bahia, um senhor considerado experto em previsão do tempo. Perguntado se ia chover, invariavelmente dava como resposta: “Pode chover e pode não chover”. Nunca errou um prognóstico.

“Vulgus vult decipi, ergo decipiatur” (“O povo quer ser enganado, então que o seja”). Atribuído, às vezes, a Petrônio, escritor satírico romano do século 1°, o dito, na realidade, é de autor anônimo. Seu significado: ávido por novidades, o homem se contenta com qualquer versão, mesmo mentirosa. Interessa é satisfazer a própria curiosidade.

Que nos pode trazer o novo ano? De fantástico ou mirabolante, nada. Em 2012 colheremos aquilo que tivermos plantado. Por mais que as pessoas torçam, a realidade não vai se transformar assim, do nada. É inútil desejar o pó de pirlimpimpim, da fada Sininho, que fazia as pessoas voarem. Mágica não funciona na vida real. Todo efeito se produz a partir de uma causa. Se não colocarmos as condições, nossos anseios jamais se realizarão. Santo Agostinho (354-430) definiu, de forma lapidar: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”. Fomos feitos donos do nosso destino. Deus nos criou livres e senhores de nossas decisões. Cabe-nos a honra e o dever de buscar sempre o melhor. Por mais que isso nos custe. A construção de uma sociedade justa, solidária, fraterna não se dará por acaso. Se não nos comprometemos nesse projeto – cada um no espaço de atuação que lhe compete –, podemos esperar sentados, que nada vai acontecer.

O mundo está cheio de especialistas em apontar soluções. O que falta são os corajosos, que se disponham a meter a mão na massa. Ontem já passou, é inútil chorar. Amanhã ainda não chegou, portanto não existe. O que temos na mão é o hoje. O agora se oferece como promessa e possibilidade. Se deixarmos passar o momento de reconhecer e corrigir nossas falhas, continuaremos tecendo lamúrias sobre a droga que mundo em que nos sentimos condenados a viver.

A mudança do Universo começa pela mudança que eu faço em mim mesmo.
(Em janeiro os leitores estarão livres desta crônica, que retorna em fevereiro)

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  • Postado em: 31 de dezembro de 2011 às 02:00
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O que fica do que passou

Tirante a amplitude da circunferência abdominal, a dificuldade de subir ladeira, a urgência em levantar à noite várias vezes e o esforço de fazer a memória pegar no tranco, não posso dizer que os anos me pesem muito. Tempo houve em que tudo era mais fácil. Ainda assim, não me queixo. Aborrecem-me saudosistas de olhos sempre fixos no passado. Não sofro por não ter de volta o que já foi. “Tudo tem seu tempo” (Ecl 3,1). Comento situações que vivi porque me ensinaram alguma coisa. “O saber não ocupa lugar”, dizia o pai. Já ouvi que, se alguém fala: “Tenho muita experiência”, o que quer dizer é: “Já fiz muita burrada na vida”. Pode ser. Sem negar as tolices que cometi, entendo que a idade também me forneceu lições determinantes de bem viver.

Exemplo: quem viveu meia dúzia de décadas lembra como funcionavam as coisas em família. Pai e mãe davam ordens, filhos obedeciam. Não se respeitava a individualidade dos filhos? Pais eram dominadores? Havia casos, sim, não dá para esconder. Afinal poucos tinham ouvido falar de psicologia. Ainda hoje, apesar do muito que progredimos, quantos podem considerar-se verdadeiro pai ou mãe? Naquela época, então… Às crianças não se davam chances de escolha. Moradia, comida, vestuário, calçado, brinquedo, tudo era decidido pelos pais. Roupa e sapato passavam de filhos mais velhos para mais novos. Sem arrufo nem esperneio. Sequer em sonho passava pela cabeça de um adulto que criança lhe questionasse uma decisão. Não há como não reconhecer a melhora que conseguimos. Hoje, pais se empenham em acertar na formação dos rebentos. Não se permitem domesticá-los. Nem agir como ditadores.

Alguns, entretanto, talvez tenham virado o fio. Na ânsia de evitar excesso de autoridade optaram por autoridade nenhuma. O ambiente familiar virou do avesso. Antes era quartel, agora virou zorra. Há famílias em que o leme de comando foi entregue a uma gracinha de três anos. Nem fala direito, mas decide tudo. Os pais se julgam antenados. Sei. Esperem mais dez anos para ver.

Outro ponto: cedo aprendi que um homem vale tanto quanto a sua palavra. As pessoas ponderavam bem o que iam falar. Porque, uma vez proferida, palavra não tinha volta. Entrava em vigor com a força de compromisso. Testemunha, assinatura, firma reconhecida, registro público, para quê? O importante tinha sido empenhado: a palavra, que outra coisa não era senão o próprio ser da pessoa externado pela sua voz. Que garantia maior exigir? Ninguém pulava para trás desdizendo afirmação anteriormente feita.

Por lucrativa que fosse a vantagem ou rendoso o interesse, honra não se negociava. Ninguém punha em dúvida este aforismo: homem que se vende, ainda que por um mísero centavo, sempre recebe mais do que vale. Bom tempo, sem dúvida, em que, de olhos fechados, se confiava no que a pessoa dizia. Quem sabe, por saudade ou anseio pela volta desse tempo foi que Thiago de Mello escreveu, no Estatuto do Homem: “Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. (…) O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino”.

Em termos  de recursos de comunicação hoje nos encontramos a anos-luz do passado. Ninguém há que não aprecie as fantásticas invenções da técnica e da ciência. Bom seria se o mesmo se verificasse também no respeito à verdade.

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  • Postado em: 17 de dezembro de 2011 às 02:00
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Brio quase centenário

Sábado passado, reinaugurou-se o moderno Auditório Papa João Paulo 2°. Situa-se junto ao Seminário Nossa Senhora da Glória, na saída para Paranavaí, no fim da estradinha que desce ao lado da Via Verdi Fiat. O prédio fora inaugurado em 6 de julho de 1979. Após 31 anos de uso, houve necessidade de lhe dar um trato. Um ano de trabalho depois, remodelado e de cara nova, foi entregue como amplo espaço para eventos pastorais ou de natureza artístico-cultural. Compareceu o Coral Infantojuvenil Arquidiocesano de Maringá, que enriqueceu a cerimônia com seu refinado canto. O número pouco expressivo dos que responderam ao convite não diminui a importância da conquista para toda a comunidade maringaense.

Responsável pela condução dos trabalhos da reforma, Padre Bruno Elizeu Versari, em exposição detalhada até nos centavos, prestou conta do investimento financeiro. Os cerca de R$ 1 milhão despendidos na obra foram aportados integralmente pelos católicos de todas as paróquias da Arquidiocese. Agradeceu o esforço de todos, em especial dos mais humildes. Ele não disse, mas é convicção geral de que as construções da Igreja se fazem com o palpite dos ricos e o dinheiro dos pobres.

Antes de Dom Anuar Battisti proceder à bênção, foi dada a palavra a Dom Jaime Luiz Coelho para que historiasse o uso dado àquele terreno. Lembrou o primeiro Bispo de Maringá que, por ocasião de sua chegada, em 1957, a Companhia Melhoramentos fez doação à Diocese de um pedaço de mata a fim de que ali fosse construído o Seminário. Com ofertas dos fiéis, a Mitra Diocesana adquiriu mais duas porções, totalizando os 8½ alqueires paulistas atuais.

Com a liberdade dos seus 95 anos de lucidez, dos 54 de serviço a Maringá (55 em março vindouro) e a franqueza de sempre, Dom Jaime se permitiu uma referência à atuação dos homens públicos destes bicudos tempos. Cobrou honestidade no emprego dos recursos da comunidade. Referiu-se à exposição de Padre Bruno como exemplo de democracia, pois que esclareceu aonde foram até centavos gastos na obra. Portar-se com dignidade e transparência na destinação dos bens públicos não é virtude. É apenas obrigação. Administrador não é dono. Não se admite que use em proveito próprio dinheiro que as pessoas, com sacrifício, entregam para o bem comum. Pena que nem todos assim pensem ou assim se comportem.

Enquanto discursava, não perdia de vista o representante oficial, um vereador da patota que votou o recente aumento abusivo de salários e subsídios do Executivo e do Legislativo locais. Em situação de visível desconforto, o homem exibia um sorrisinho constrangido. Devia estar agradecendo por se encontrarem poucas pessoas naquele Auditório. Quando o primeiro Arcebispo chegou ao recinto, o vereador já estava presente. Indo-lhe ao encontro para cumprimentá-lo, foi obrigado a ouvir algo deste teor: “Quero distância de vocês. Que vergonha! Vocês só se preocupam com os próprios interesses. Não olham para as necessidades do povo”.

Dom Jaime conquistou com sobras o direito de exigir ética pública ou comunitária. Sobrevivente entre ralos gigantes, que orgulham Maringá e o Paraná, continua um referencial. Não transige com a doblez. Ou se fecha com ele ou com ele se rompe. Padre Julinho costuma avisar: “Ainda vamos sentir saudade do nosso velhinho”.

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  • Postado em: 10 de dezembro de 2011 às 02:00
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Decepção e cansaço

O épico “Ben-Hur”, de 1959, por alguns considerado o melhor filme de todos os tempos, teve duração de quase 4 horas. Dirigido por William Wyler, foi o primeiro a receber 11 estatuetas do Oscar. Impressionou-me o ator Richard Hale no papel de Gaspar, um dos três Magos, que viajaram do Extremo Oriente a Jerusalém para adorar o recém-nascido Rei dos judeus. Trinta anos mais tarde, casualmente em Jerusalém outra vez, ele presencia a condenação do Menino da manjedoura que, um dia, tinha adorado em Belém. Abatido pela descomunal vileza humana, abre o coração num lamento mais ou menos assim: “Estou muito velho. Cansei de viver. Já presenciei coisas erradas demais”.

A opinião popular a respeito dos políticos comprovadamente não é das melhores. E não se limita ao Legislativo. Figuras renomadas do Executivo não se livraram de apreciações repulsivas. Getúlio Vargas sucumbiu à acusação do “mar de lama”. Adhemar de Barros deu azo ao “rouba, mas faz”. Moisés Lupion foi processado por corrupção. Juscelino Kubistchek construiu Brasília sob denúncias de desvios de recursos. Jânio Quadros se elegeu presidente com a vassoura e a promessa de limpeza. Seu jingle: “Varre, varre, vassourinha, / varre a bandalheira, / que o povo já tá cansado / de sofrer dessa maneira”. A Ditadura Militar ocultou o que acontecia nos seus núcleos decisórios. Hoje, muitos questionam jóias do “Brasil Grande”, como Ponte Rio-Niterói, Programa Nuclear, Transamazônica, SUDAM etc. Mas observando o atual panorama, esses políticos não passavam de amadores.

A História é mestra da vida, ainda que poucos aprendam. Investido de poder constituinte, o Congresso eleito em 1986 tirou desforra dos 21 anos de servilismo. Produziu uma Constituição vantajosa para os ocupantes dos Poderes: pródiga em direitos e vantagens, sovina em deveres e obrigações. Emendas posteriores foram assegurando benefícios sempre mais generosos. Os espertalhões são artistas em trocar de assento, de cargo e de Casa sem, no entanto, largar o osso. Exemplos? Paulo Maluf, Toninho Malvadeza, José Sarney, Jáder Barbalho e companhia bela. O povo é importante, como não? É usado como escada para eles alcançarem o poder. O “rouco rugido das ruas” valeu só para reconquistar as eleições diretas.

Nas cidades do interior a escola da vergonheira vai diplomando, aos milhares, aprendizes trapalhões. Ávidos de lucro, desprovidos de ética, volta e meia ganham espaço até em programas policiais. A lição vem de cima. Porém é nas bases que tudo começa. O município é a instância primeira do civismo. É onde eleitores são respeitados como cidadãos ou humilhados como palhaços.

Como acabam de provar alguns dos nossos provincianos políticos. Não é desanimador que o povo precise se defender de “representantes” que acreditava dignos de respeito? Já não basta tomar cuidado com os bandidos das ruas?

Não que eu esteja, como o velho Gaspar, desiludido da vida. Embora não negue que, mais de uma vez, em especial nestes tempos, me volta à memória o seu desabafo. Tenho convicção de que a fé assegura a vitória última do Bem sobre o Mal. Nenhum cristão se permite duvidar de que o Senhor, no momento decisivo da História, fará triunfar a justiça e destruirá toda a maldade. Mas enquanto isso não acontece, só Ele sabe quanto custa conviver com tanta indignidade.

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  • Postado em: 3 de dezembro de 2011 às 02:00
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Os vereadores, de novo

“Se o povo soubesse como são feitas as leis e as salsichas!”. O dito atribui-se ao chanceler Otto Von Bismarck (1815-1898). O adendo “não dormiria tranqüilo” não parece original. No século 19 era lastimável a higiene das fábricas de salsichas. Hoje as coisas devem ter mudado.

Quanto às leis, “há controvérsias”, como diria Francisco Milani, o Pedro Pedreira, da Escolinha do Professor Raimundo. É só ver o comportamento dos nossos vereadores. Bem na surdina, para esconder do povo a tramoia, quinta-feira passada, apreciaram e aprovaram, a toque de caixa, projetos que viraram a Lei n° 9104 e a n° 9105.

Que estabelecem, para o próximo exercício, os subsídios de vereadores e de altos funcionários do Executivo. Já estão em vigor, mas só vão surtir efeito a partir de 1° de janeiro de 2013. Por que, então, o açodamento? Quando uma lei em Maringá foi discutida, aprovada e sancionada em tão pouco tempo? Que dizer então do aumento da verba de gabinete? Não é muita folga gastar dinheiro do povo no pagamento de cabos eleitorais, que cuidam da reeleição do vereador? Vamos deixar de falácia: qual a real função dos chamados assessores?

Não venham dizer que há respaldo legal. Qualquer nenê de colo sabe da esperteza dos políticos. Muitas vezes criam leis para proveito de uns e detrimento de todos os outros. Como justificar eticamente o que fez a maioria dos nossos vereadores naquela sinistra quinta-feira?

 Não custa lembrar que a atual Constituição, festejada como cidadã, tinha recebido, até dezembro passado, 67 emendas. Antes de completar 4 anos, já apareceu a primeira. Sobre o quê? Um doce para quem adivinhar. Claro, sobre a remuneração de deputados estaduais e vereadores. Não é piada, não.

Quem faz as leis abocanha vencimentos que envergonham a Nação. De Brasília ao último município, políticos cuidam bem de seus interesses. O povo? Lembram Justo Veríssimo, personagem de Chico Anísio? “Que se exploda”. Alheia ao sofrimento dos súditos, Maria Antonieta, mulher de Luís 16, teria dito: “Se não têm pão, que comam brioches!” A maioria dos políticos aplaude esse humor negro. Vive fazendo o mesmo. Nós lhes confiamos o bem da comunidade e eles se riem de nós. Devem considerar-nos um bando de idiotas.

Mesmo sem traquejo nos meandros jurídicos, o homem do povo revela senso de justiça. Ele tem honra. Os nomes que aplica ao gesto dos vereadores comprovam a indignação popular. Vergonha, indignidade, acinte, desrespeito, abuso são os menos pesados, os publicáveis.

Quantas pessoas, em todo o Município, alimentam a esperança de, um dia, embolsar um rendimento mensal de doze mil reais? Vereador existe para fiscalizar o Poder Executivo e legislar em favor dos munícipes.

Mesmo que todos cumprissem o seu dever, o subsídio aprovado não significa afronta real aos eleitores? Chegamos ao ponto em que a cauda abana o cachorro. Pois o patrão batalha para sobreviver, mas tem que pagar uma fortuna aos empregados, que gozam a vida e zombam dele.

É aceitável que um povo trabalhador – e com dificuldade na saúde, educação, moradia, transporte, segurança e em tantas coisas mais – precise entregar seus suados caraminguás para garantir vencimentos de autênticos nababos a Suas Excelências? Que ainda se intitulam seus representantes?

Gente, está faltando óleo de peroba na praça.

  • por: admin
  • Postado em: 26 de novembro de 2011 às 02:00
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Nossos seres de luz

“Irene preta,/Irene boa,/Irene sempre de bom humor./Imagino Irene entrando no céu: – Licença, meu branco!/E São Pedro bonachão:/– Entra, Irene. Você não precisa pedir licença”.

O poema de Manuel Bandeira (1886-1968) apresenta Irene, uma negra humilde, pobre, talvez analfabeta, de sorriso fácil. E também santa. Como a multidão de milhões, de bilhões de seres humanos pelo mundo afora. A heróis de verdade pouco se lhes dá serem ou não reconhecidos. Topamos com eles e sequer nos damos conta. Desconhecemos seus nomes, ignoramos sua biografia, enquanto juntos pisamos o mesmo terreno.

Somos influenciados pelas notícias negativas atiradas, com voz forte e letras grandes, em nossos olhos e ouvidos. Por obra desse bombardeio, sustentamos que o gênero humano, por inteiro, sucumbiu a uma invencível podridão. Podemos até não dizer, mas no fundo nutrimos a impressão de que ninguém mais presta.

Contudo, a parte maior da humanidade é formada por gente boa. Gente cuja presença nos estimula a nos tornarmos melhores. Homens e mulheres que caminham ao nosso lado e tornam menos fatigante nossa peregrinação pela vida. E nos movem na direção de uma certeza: o mundo não está perdido.

Em paróquia onde trabalhei, faz alguns anos, no meio de muitas pessoas de valor, cativou-me o exemplo de uma mulher especial. Daquelas impossíveis de esquecer. De uma candura imensa. Pobre como calango de terra queimada. Embora sem estudo, irradiava profunda sabedoria.

 Com ela, não raro, se aconselhavam homens e mulheres. Problemas entre esposos, de educação de filhos, de venda de propriedade, de mudança de emprego, qualquer coisa. Sua lucidez transmitia uma segurança que só Deus pode dar. Estou convencido de que nela o Espírito Santo derramou, em dose avantajada, os dons do conselho e da fortaleza.

Era portadora daquela fé que remove montanha (cf. Mt 17,20). Um modelo de serenidade frente à brutalidade da vida. A pobreza não conseguiu assustá-la. Nem lhe remover dos lábios o diário sorriso.

 A ela e ao marido a natureza recusou o dom de gerar filhos. Mas deles não roubou a paz nem os fez desiludir da vida. Um heroísmo de que só pobres são capazes moveu-os a trazer para dentro de casa não um, mas quatro filhos alheios. Nunca falaram de adoção. No entoado linguajar de Minas Gerais, as crianças foram “pegas para criar”.

Quando apareceu a doença do Tião, ela se obrigou a correr, sem dinheiro, atrás de médicos, de hospitais e de farmácias. Foi um tempo de sofrimento, de cansaço e de exercício de paciência. Reclamação nenhuma. Nada arruinou sua tranquilidade construída sobre a fé. Nem lhe faltou o carinho da comunidade, que a venerava. Por fim, Deus decidiu que era o momento de chamar à sua glória o companheiro de tantos anos. Da minúscula casa em que morava, ela continuou a irradiar, anos a fio, seu clarão de luz benfazeja. Á distância, vez por outra, tornei a encontrá-la. Sempre disponível para os que sofriam. Com o sorriso e a palavra nascidos do coração.

Meses atrás, me comunicaram que havia falecido. Fui até lá. O caixão tomava a sala pequenina. Difícil andar em volta. Antes de oficiar as exéquias não pude segurar, confesso, um choro quente e prolongado. Emudecera Dona Geralda, mestra de todos nós. O rosto refletia a doce paz com que o Pai a envolveu em sua nova Casa.

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  • Postado em: 19 de novembro de 2011 às 02:00
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Um conto para nossos dias

“De porta em porta, eu andara mendigando pelo caminho da aldeia, quando o teu carro de ouro apareceu na distância como um sonho deslumbrante, e eu me perguntei se seria esse o Rei de todos os reis. Exaltaram-se as minhas esperanças e pareceu-me ver chegado o fim de meus dias maus. E fiquei aguardando esmolas que seriam dadas sem ser pedidas e um tesouro que seria espalhado por toda a parte, na areia.

O carro parou onde eu estava. Teu olhar caiu sobre mim e tu desceste com um sorriso. Senti que, afinal, chegara a felicidade de minha vida. Então, inesperadamente, estendeste-me a tua mão direita e disseste: ‘Que tens tu para me dar?’ Ah, que capricho de rei foi esse de abrires a palma da tua mão para pedires a um pedinte! Fiquei confundido e parei indeciso. E do meu alforje então, lentamente, tirei e dei-te o grão de trigo menor de todos.

Mas que grande surpresa foi a minha quando, pelo fim do dia, entornando no chão a sacola, encontrei entre as minhas migalhas um grão de ouro que era o menor de todos. Amargamente chorei, lamentando não ter tido coragem de me haver dado todo a Ti”.

Seria cristão o autor dessa fina censura ao egoísmo de todos nós? De certa forma, ela remete ao final do episódio do jovem rico: “Todo aquele que deixa casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos e campos, por causa de mim e do Evangelho recebe cem vezes mais agora, durante esta vida, com perseguições, e no mundo futuro, a vida eterna” (Mc 10, 17-30). Não, o criativo relato não pertence à literatura cristã. Escreveu-o o poeta indiano Rabindranath Tagore (1861-1941). Com rara sensibilidade ele indica a causa das diferenças sociais que inventamos.

O poema das bem-aventuranças (Mt 5,3-12) principia pelos pobres. Não sem razão. Quem não partilha os bens terrenos se faz cúmplice dos flagelos que infelicitam o planeta inteiro. A História comprova, há séculos, que a cobiça do dinheiro congela os corações. Esteriliza-os de toda a doçura. Infunde-lhes uma dureza que nem os animais bravios demonstram. As misérias globais não permitem ilusão.

 Atingimos a cifra de sete bilhões de ocupantes de um mundo que não se preocupa que morram de fome, por ano, um bilhão e duzentos mil. Um bilhão e trezentas mil pessoas iguais a nós estão privadas da água potável minimamente necessária. Por falta de comida morrem, a cada dia, onze mil crianças. Tão inocentes quanto as que levamos ao shopping para comprar coisas supérfluas.

 Entre as várias causas da fome no mundo não se devem omitir “a busca egoísta do dinheiro, do poder e da imagem pública; a perda do sentido de serviço à comunidade, em benefício exclusivo de pessoas ou de grupos; sem esquecer o importante grau de corrupção, sob as mais diversas formas, de que nenhum país se pode afirmar isento”. Foi o que apontou, em 4 de outubro de 1996, o documento pontifício “A Fome no Mundo”.

Estamos carecas de saber verdades claras como o sol do meio-dia. Mas não fazemos caso. O Senhor continua a nos estender a mão: ‘Que tens para me dar’? Desconfiamos que ele nos queira roubar. Tolice. Tudo o que temos foi ele que nos deu. De que aproveita ler a Bíblia e citá-la a todo instante, se recusamos praticar o que ela ensina? Ela não diz, com todas as letras, que Jesus interpreta como feito a Si mesmo o que fizermos ao menor dos irmãos (Mt 25,40)?

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  • Postado em: 12 de novembro de 2011 às 02:00
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Aonde vamos chegar?

Passei em Bogotá, na Colômbia, todo o mês de julho de 1985. Amplo Instituto de Pastoral acolheu-nos para o 4° Curso de Formadores de Seminários promovido pelo CELAM – Conselho Episcopal Latino-americano.

 Éramos uns 70 padres da América do Sul, América Central e México O trabalho ia das 7h00 às 22h00, de segunda a sexta. Sábado à tarde respirávamos um pouco. Um futebol de toque latino mesclava em campo uma salada de etnias nem sempre harmônicas. Mesmo entre padres, o embate com os “hermanos”, vez por outra, erguia a temperatura. Pelo que ouvi, o problema é com os portenhos, vistos até pelos conterrâneos como gente que se acha. Queixei-me a um colega de Córdoba: “Dos seis argentinos aqui, Martín é o mais marrento”. Ele respondeu com firmeza: “Martín no es argentino; es porteño”.

Do programa constavam excursões a belos sítios das cercanias. Vinham duas espécies de jardineiras (lá chamadas por nome impublicável em nossa língua), que nos conduziam por estradas sinuosas e estreitas, desafios para a habilidade dos motoristas e a fé dos passageiros.

 O retorno acontecia no final do domingo. Pudemos então confirmar que os colombianos bebiam demais. Não sei hoje, mas as autoridades da época mostravam-se preocupadas. Era um dos graves problemas nacionais, assim como a violência dos narcotraficantes e dos membros das FARC.

Desses passeios domingueiros ganhei o registro de uma cena forte. Vinte e seis anos depois, não dou conta de expulsá-la da memória. Sol descambando no horizonte, voltávamos para Bogotá, quando deparamos com uma espécie de furgão tombado. Por sorte, do lado da íngreme encosta do morro.

A estrada, naquele ponto, serpeava entre montanha e precipício. Acabara de acontecer. Fomos os primeiros a chegar. Nossos motoristas embicaram as jardineiras no arremedo de acostamento e descemos correndo. Nenhum ferido grave. Apenas escoriações que sangravam.

Espantoso: cinco adultos, nenhum sóbrio. A curta distância, algo de cortar o coração. Só, na estrada, um garotinho chorava. Sem um ferimento sequer. Era, ainda assim, um quadro pungente de angústia e desolação. Nunca vi tanto desespero nem mais perfeita mostra de pavor.

Eu precisava fazer alguma coisa. Mas o quê, em situação daquelas? Caminhei até ele. Frustrou-me minha absoluta impotência. Embora fale aceitavelmente o espanhol, não fui capaz de lhe oferecer mínimo alívio. Tão destruidora sentia sua dor que nada o podia atingir. Seu mundo se reduzira àquele pranto de abandono. De perda do sentido de viver. De agonia tão dura que lhe cerrava as portas a todo possível conforto.

Dele me lembrei recentemente, quando li que no Brasil de 2011 atingimos, já em outubro, 40.000 mortos no trânsito. Veja-se a comparação: apenas 42 dos 399 municípios paranaenses têm 40.000 habitantes. Se acontecessem em um dos outros 357, os acidentes conseguiriam dizimar, por até vinte vezes, a população inteira. Teriam bastado para varrer, por completo, os habitantes dos 19 menores municípios reunidos. O CESVI – Centro de Experimentação e Segurança Viária contabiliza ainda, além das mortes, o anual internamento hospitalar de 180 mil feridos. No Brasil o gasto, por ano, com acidentes de trânsito chega a 34 bilhões de reais.

Qual a extensão do oceano de lágrimas choradas pelas crianças vítimas dessa carnificina?

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  • Postado em: 5 de novembro de 2011 às 02:00
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Descansem em paz

Quis um senhor a opinião da Igreja Católica sobre cremação de cadáveres. Não há hoje nenhuma repulsa. Objeção haveria se, como já aconteceu, ela exprimisse intenção de negar a ressurreição dos mortos, dogma de fé (verdade revelada por Deus, indiscutível, pois).

Mais do que com sentimento religioso, a cremação atual tem a ver com problemas de espaço e de meio ambiente.

Sepultar os mortos é um rito que se perde nas brumas da história. Expõe o dinamismo religioso arraigado no coração humano. Ensinam Rudolf Otto (1869-1937) e Mircea Eliade (1907-1986), que a morte pertence ao universo do sagrado, área exclusiva da divindade, na qual o homem avança às apalpadelas, como ser pequeno, confuso, cheio de temor. Todas as religiões cultivam algum modelo de piedosa convivência com a morte.

Até o século 3°, na Roma dos césares, os cristãos, pobres em sua maioria, sepultavam seus mortos junto às grandes vias imperiais. Desses lóculos cavados na terra, o solo vulcânico conserva galerias, chamadas catacumbas, visitadas até hoje. Finda a perseguição, em muitos lugares, defuntos foram sepultadas no interior das igrejas.

Com o aumento de fiéis, criaram-se, ao lado dos templos, locais para esse fim. Durante longo período, os cemitérios foram extensões das igrejas paroquiais. Exemplos se veem ainda, inclusive no Brasil. Com a separação entre Igreja e Estado, este regulamentou os serviços fúnebres.

Além da localização geográfica, tornaram-se objetos de legislação específica matérias ligadas à saúde pública: uso do solo, transporte, edificações, condições de acesso etc. Em sociedade organizada não se relega ao talante de cada pessoa ou grupo a forma de cuidar dos seus mortos.

Não sou muito fã do Dia de Finados. Na verdade, nem dos instituídos para pai, mãe, professor, índio, criança… Entendo que amor e gratidão não devem ser ocasionais. Não há por que lhes marcar dia. O domingo, dia do Senhor, é um caso diferente. Como os feriados religiosos ou cívicos.

 Estes não se prestam à odiosa exploração comercial. Datas especiais, em vez, se transformam, quase sempre, em motivo de aborrecimento. Alguém aprova o rebuliço que toma conta de qualquer cemitério do Brasil num Dia de Finados? Pergunte a uma criança, a um idoso, a quem sofre com excesso de gente, de veículos ou de barulho.

Duvido que um só se mostre satisfeito com esse dia. Sem esquecer que, quase sempre, à tarde, chove. Aí o fuzuê atinge o insuportável.

Em Finados, cemitérios se convertem em ponto de romaria. Da horda que os invade fazem parte centenas, até milhares, de pessoas vindas de longe. Não existe meio de chegarem a pé. Então, flanelinhas e flanelões deitam e rolam. Achacam, na maior cara dura, os pobres visitantes, que acabam vítimas de autênticos assaltos. Pelo jeito, não existe poder nenhum, em todo o País, com capacidade de dar fim a esse abuso.

Não bastasse, fervilham vendedores dos mais variados artigos. Flores, velas, refrigerantes, sorvetes, frutas, guloseimas e salgadinhos de nubilosa origem e asseio discutível, água… Tudo com preço de 1° Mundo.

Como qualquer cristão, eu respeito a memória dos mortos. Sufrago-os com minha pobre oração. O pai e a mãe ganharam belo túmulo. Mas visito-o em outros dias. Quando é possível conservar o silêncio. E fazer uma prece para que descansem em paz.

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  • Postado em: 29 de outubro de 2011 às 02:00
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Doutora Zilda, um sucesso

Criança feia não tem pai. Ele faz tudo para não aparecer. Pai se orgulha de filho bonito, saudável, inteligente, bem comportado. Quando se afasta desse figurino, não há interesse de revelar a paternidade. Quem faz sucesso atrai muita gente que faz festa e bate palmas. É uma grandeza o quanto de pessoas se esforçam por ostentar uma forçada intimidade com quem está em alta.

Caso da Pastoral da Criança. Tudo começou com um telefonema de Dom Paulo Evaristo Arns, de São Paulo, para sua irmã Zilda, médica pediatra e sanitarista residente em Curitiba, viúva e mãe de cinco filhos com idades entre 10 e 20 anos. Numa reunião sobre a paz mundial, no ano de 1982, James Grant, diretor executivo da Unicef, organismo da ONU, propôs ao arcebispo de São Paulo que a Igreja Católica encabeçasse uma campanha para salvar crianças que morriam aos montes, acometidas de enfermidades de fácil prevenção. Dom Paulo perguntou a Zilda se podia pensar em algo a respeito. Ela podia. E pensou. Hoje o mundo inteiro, extasiado, contempla a obra de uma mulher, que não só viveu, mas veio a morrer pelo projeto que criou.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil abraçou a concepção de Zilda Arns Neumann. Indicou Dom Geraldo Majella Agnelo, então arcebispo de Londrina, para acompanhá-la. Em 1983, foi criada a Pastoral da Criança, em Florestópolis (PR), o município com maior índice, na época, de mortalidade infantil do Paraná: 127 óbitos por 1000 nascidos vivos.

Atualmente a Pastoral é responsável por um trabalho de extrema eficácia exercido por 228.000 voluntários capacitados, apenas no Brasil. São especialmente senhoras, que levam a comunidades pobres seus conhecimentos sobre saúde, nutrição, educação e cidadania. Atende mais de dois milhões de gestantes e crianças menores de seis anos.

Assiste a um milhão e meio de famílias pobres, distribuídas por 38.766 comunidades, de quase 4.100 municípios em todo o País. Tamanho êxito e abençoados frutos fizeram surgir, em 2008, no Uruguai, a Pastoral da Criança Internacional. Hoje ela se faz presente no Timor Leste e Angola; na Argentina, Uruguai, Colômbia e Paraguai e, ainda, na República Dominicana e no Haiti. Neste país se encontrava Zilda Arns quando, no terremoto de 12 de janeiro do ano passado, foi esmagada pelo desabamento de um edifício.

Singular a grandeza dessa mulher, já venerada como santa. Não podiam, evidentemente, faltar políticos que fazem de tudo para transformá-la em cabo eleitoral, de olho gordo nos dividendos das urnas.

 Doutora Zilda, porém, jamais almejou mínima glória nem prêmio. Moveu-a a profundeza de uma fé cristã não proclamada em discurso, mas traduzida no amor diário pelos sofredores. A mulher que, com igual liberdade, entrava tanto num palácio oficial quanto num barraco de favela, jamais escondeu que a Pastoral da Criança existe e funciona por causa dos voluntários. Sempre reconheceu e exaltou essa multidão de heróis constituída especialmente de senhoras humildes.

 Essa é a alma, a mola propulsora das realizações da Pastoral da Criança. A genial intuição de Zilda foi acreditar nesse pessoal anônimo, que percorre a pé dezenas de quilômetros para cuidar de filhos dos outros. Nada doutora Zilda teria feito sem os seus voluntários. Humildes, desconhecidos, mas absolutamente maravilhosos.

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  • Postado em: 22 de outubro de 2011 às 02:00
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É seu dia, professor

Mês passado, a Prefeitura Municipal de Paranacity prestou homenagem aos professores aposentados que lá trabalharam. Fui convidado a lhes dirigir uma mensagem que atestasse a gratidão de que se tornaram merecedores por uma vida consagrada ao ensino. Não podia imaginar que a intenção era reverenciar especialmente o pobre autor destas mal traçadas.

Foi-me entregue delicada lembrança junto com placa de prata em que aparece inscrito o pensamento de autor desconhecido: “O destino une e separa as pessoas, mas nenhuma força é tão grande que leve a esquecer aqueles que por algum momento nos fizeram felizes”. A seguir, em letras maiores, a afirmação de que faço parte da história daquela comunidade.
Não tenho vergonha de admitir que me tomou forte emoção. Ao agradecer, se me engrolaram as palavras e o nó da garganta me fez apelar para um salvador copo d’água.

Ultimamente, vem crescendo minha facilidade de chorar. Acho que, após acidente vascular cerebral ou infarto, especialmente os homens se mostram emotivos, facilmente levados às lágrimas. Autopiedade, talvez? Ou saudade da pessoa vigorosa que, um dia, cada um foi e agora não é mais? Não se aplica a mim o diagnóstico. Tenho passado incólume, até aqui, a esses percalços de saúde. Mas na travessia do mar da vida já dobrei o Cabo da Boa Esperança. Resta-me milhagem inferior àquela que já percorri. Estaria eu experimentando, por isso, a síndrome da autopiedade?

Foi gratificante, naquela noite, descobrir que, depois de quatro décadas, ainda há quem de nós se lembre com ternura. Ao se identificarem, porque os traços mudam da infância para a idade adulta, ex-alunos faziam ressoar no nosso coração a doce melodia de um tempo de sorrisos.

 Por algumas horas, nos sentimos transportados de volta à fase em que a vida era apenas um celeiro de ingênuas promessas. Que bom reencontrar – agora adultos; alguns, professores também – meninos e meninas que ontem conhecemos nos bancos escolares. Ouvi-los dizer que jamais se esqueceram de nós. Que marcamos positivamente uma época importante, mais que isso, decisiva da vida deles.

Ali nos reunimos dezenas de professores aposentados. Cabelos ralos ou nenhum; coloridos nas mulheres, brancos nos homens (quando os havia); rostos vincados de rugas, todos nos entregamos à recordação de um tempo em que nos sentíamos sinceramente responsáveis por uma garotada que amávamos com paixão. E que, em sua maioria, parece ter compreendido esse amor.

Não sei como é hoje uma sala de aula. Há muito não entro numa. O que tenho ouvido e lido, porém, me enche de susto. E de grande compaixão daqueles de quem, faz quarenta anos, fui colega. No arcabouço da nossa vida social eles compõem, nos dias que vivemos, se não a mais, pelo menos uma das mais injustiçadas e esquecidas categorias.

O sonho de uma juventude dourada, aberta à vida de consumo e de aparência, aponta somente para carreiras tidas por mais nobres e lucrativas. Do professor ninguém se lembra.

O que é lamentável. Quando as pessoas se convencerão de que sem professores não haverá profissionais competentes e dignos? Sem alicerce nada se constroi. Como se formarão cientistas das mais variadas áreas do saber, cada dia mais diversificado e exigente, se não se reconhece o valor daquele(a) que aponta o rumo às novas gerações?

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  • Postado em: 15 de outubro de 2011 às 02:00
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Prosa vã

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