
No dia 10 de Agosto de 2009, o Jornal The New York Times publicou um interessante artigo, assinado por Brad Stone, sobre o comportamento do consumidor na era digital.
Karl e Dorsey Gude, típica família americana, ainda se recordam de como eram as manhãs em sua casa. Eles sentavam-se juntos e conversavam enquanto comiam seu café da manhã. Costumavam ler jornais, e para ter a atenção de seus dois filhos adolescentes, só competiam com a televisão.
Isso foi até o século passado. Hoje, Karl Gude acorda por volta das seis horas da manhã para checar seu e-mail de trabalho, Facebook e Twitter. Seus dois filhos, Cole e Eric, já começam suas manhãs cercados de mensagens de texto, vídeo-games e acessando o Facebook.
A nova rotina rapidamente tornou-se motivo de conflito na família com as constantes reclamações da mãe Dorsey Gude. Segundo ela a tecnologia estava atrapalhando a harmonia familiar. Porém, ultimamente até Dorsey desistiu de reclamar e começou a abrir seu laptop logo após os cafés da manhã na casa.
“Coisas que eu achava serem inaceitáveis há alguns anos atrás, agora já são comuns em minha casa” contesta Dorsey Gude, “todos nós começamos o dia em quatro computadores diferentes em quartos separados.”
A Tecnologia vem mudando constantemente o hábito de vida e a rotina das pessoas, mas para muitas, essas mudanças já são realidade e vem alterando uma das horas mais importantes no que diz respeito a “rituais” familiares nos EUA; o Café da Manhã.
As manhãs nos Estados Unidos, atualmente estão exatamente assim na era da internet. Depois de seis a oito horas de sono, as pessoas logo após acordarem já buscam seus equipamentos como celulares e laptops, muitas vezes antes mesmo de colocarem seus pés no chão ou atenderem a “emergências biológicas” do corpo.
“Costumava ser diferente, primeiro levantávamos, íamos ao banheiro, escovávamos os dentes e líamos um Jornal” disse Naomi S. Baron, professor de lingüística da American University que escreve sobre como a tecnologia vem adentrando-se em nossa vida. “A nossa primeira atividade diária tem alterado-se nos últimos anos. Eu serei o primeiro a admitir que a primeira coisa que eu faço é checar meus e-mails”.
Os filhos de Karl e Dorsey dormem com seus celulares ao lado de suas camas, com isso eles iniciam todas as manhãs com mensagens de texto ao invés de alarmes eletrônicos. Karl Gude, um instrutor na Michigan State University, manda mensagens de texto para que seus dois filhos acordem.
“Nós usamos as mensagens de texto como uma forma de comunicador interno da casa” disse Karl. “Eu poderia simplesmente subir as escadas e acordá-los, mas eles sempre respondem as mensagens”.
A família Gudes recentemente começou a desligar aparelhos celulares nos finais de semana, por exemplo, para que a família permanecesse mais tempo junta. Quando estão em seus quartos, o impulso para conectar-se na internet antes de qualquer atividade tem causado um caos ainda maior em sua já mudada atividade pelas manhãs. As manhãs dos dias de semana têm sido frenéticas. As famílias, que antes costumavam brigar pelo chuveiro de manhã hoje já não se comunicam mais.
Com o aumento do número de famílias que tem mudado seu hábito matinal, as operadoras de internet que estavam acostumadas a ver o tráfego da rede só aumentar ao início do horário comercial, agora verificam uma rápida mudança já bem cedo, muito antes do horário comercial.
A Arbor Networks, companhia situada em Boston e que analisa e mensura o uso da internet nos EUA, ressalta que no país o tráfego de dados na rede gradualmente diminui entre meia noite e seis horas da manhã para então drasticamente aumentar a partir das sete horas da manhã.
Segundo a Akamai, uma empresa que ajuda sites como o Facebook e o Amazon a manterem suas altas médias de acesso, diz que o aumento do tráfego na internet começa por volta das seis horas da manhã. Já a operadora de telefonia celular e internet, Verizon, ressalta que o número de mensagens enviadas entre as sete e as dez horas da manhã aumentou mais de 50% em Julho, comparado com o ano anterior
Tanto as crianças quanto os adultos tem boas razões para acordar e já se conectarem a internet. Papai e mamãe precisam checar seus e-mails. As crianças por sua vez checam suas mensagens de texto e também o mural de recados em sites como o Facebook . Muitas vezes esquecem-se de suas obrigações durante tais tarefas.
Em Maio deste ano, Gabrielle Glasser de Montclair, Nova Jersey, comprou de aniversário para sua filha de quatorze anos, Moriah, um laptop Apple. Nas semanas seguintes, Moriah, perdeu o ônibus da escola três vezes e deixou de passear com o cachorro de estimação da família.
Moriah admite que não tenha dado muita atenção ao horário do ônibus nem ao cachorro, e culpa o Facebook por sua atitude. Segundo ela seus amigos acordam cedo para ficarem online e atualizarem seus perfis, com isso há uma razão para que seus hábitos, inclusive os dela, mudem.
Algumas famílias têm tentado estabelecer limites para o uso da internet, principalmente pelas manhãs. James Steyer fundador da Common Sense Media, uma organização sem fins lucrativos que lida com crianças e entretenimento, acorda todos os dias às seis da manhã e passa cerca de uma hora mexendo em seu Blackberry, organizando e-mails de contatos de diferentes partes do mundo. No entanto, quando Steyer encontra sua mulher, Liz, e seus quatro filhos para o café da manhã na mesa, não são permitidos laptops nem celulares.

Liz Steyter depois do café da manhã com três filhos SOS seus quatro filhos. Laptops e celulares estão proibidos durante as refeições.
Segundo Steyer, ele e seus filhos sentem a tentação da tecnologia pela manhã. Kirk, um dos seus filhos, geralmente passa mais de uma hora jogando vídeo-game todas as manhãs. Até Jesse, de cinco anos, começou a perguntar todas as manhãs se ele poderia jogar jogos no celular. Steyers por sua vez, diz que espera todas as manhãs por mensagens em seu BlackBerry, mesmo nos horários em que a família é prioridade.
“Você tem que resistir ao impulso. Você tem que mudar do modo de trabalho para o modo de pai”
disse James Steyer.
Percebe-se através de artigos como o do New York Times, além de inúmeras pesquisas sobre o comportamento do consumidor na era digital, que cada vez mais a tecnologia toma nossa vida por completo. É importante indagar a verdadeira importância da tecnologia em nossos hábitos. Se tivermos em mente de que a tecnologia é algo supostamente criada para nos poupar tempo, logo percebemos que estamos poupando cada vez mais tempo em pequenas ações, mas essas têm tomado a maioria do nosso tempo, fazendo com que nos privemos de coisas que antes considerávamos como essenciais, como é o caso de um café da manhã familiar.
Independente de sua condição moral e ética, essa é uma realidade presente em incontáveis famílias pelo mundo afora, impulsionando um importante mercado; o da informação.
Pesquisa: http://www.nytimes.com
Felipe Agnello
felipeagnello@publistorm.com
Um cara interessado em saber, não importa a forma ou o sentido. Criativo, antenado, apaixonado.
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