• Personagens invisíveis, com belas histórias e ricos perfis

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Não lembro do nome dela. Uma senhora simpática, com seus 70 e poucos anos, que morava numa casinha de madeira na Estrada 20 do Alegre, perto de uma localidade conhecida por Lombo da égua. Fica na zona rural de Mandaguari, quase no limite com Marialva.

Personagem fantástico, daqueles cuja história a gente não esquece.

Ela vivia sozinha naquele ermo num sítio entrecortado por montanhas. Avessa a qualquer relacionamento, não assistia à televisão nem ia à cidade.

Disse-me que fazia cinco anos que não saía de lá. Sua única companhia eram dois cachorros e um radinho de pilha para ouvir música. De vez em quando, seu único filho que morava em Sarandi, ia visitá-la.

Estou relembrando esse caso para dizer que as cidades da região são recheadas de personagens interessantes.

Outro que conheci foi um coveiro de Marialva, cujo apelido era Torradinho. Ele sabia `décor¿ o nome e a causa da morte de quase todas as pessoas sepultadas no cemitério.

¿Aquele lá morreu de infarto, este de trombada (acidente) e aquele outro de câncer¿, afirmava Torradinho. Figura singular, ele mandou construir seu próprio túmulo com luz elétrica e tomada para televisão.

Dizia que se fosse enterrado vivo por engano, pelo menos teria como passar o tempo.

Sarandi é farta em personagens que rendem histórias. Por lá vivia o Poeta Bitelo. Ele colecionava vários cadernos nos quais escrevia suas poesias.

Andava com eles pela rua e quando tinha inspiração colocava os versos no papel.

Outro de lá era um senhor que percorreu por mais de uma vez parte do Brasil de bicicleta.Foram mais de 20 mil quilômetros pedalando.

No Nordeste, dizia ter contado mais de três mil cruzes erguidas na beira das rodovias.

Saudade da dona Isabel, primeira enfermeira de Sarandi e pioneira da região.

Morreu em 2008 e deixou muita história guardada. Sua casa era um museu vivo.

Tinha muitas fotos e objetos antigos. Com destaque para uma coleção da revista O Cruzeiro.

De Astorga, me lembro de um sujeito que tinha uma lábia para inventar histórias.

Conseguia descrever ruas e cafés de Paris sem nunca ter estado lá. A primeira e única vez que o ouvi, imaginei que fosse viajado. Depois me disseram que seus
causos não passavam de relatos de leituras.

Em Paranacity, um senhor de meia idade arrumou ofício interessante: dar comida aos macacos. Todos os dias, ele recolhia restos de legumes e frutas num supermercado e ia tratar dos bichos que ficam numa reserva próxima da cidade.

Chegava a um lugar demarcado no meio da mata e entoava com assobios: `Chico, Chico, Chico?... De repente, saltos e mais saltos pelas árvores.

Eram os macacos para mais uma refeição. balaieiro? Que bela arte trançar taquara até transformar-se em balaios e cestos.

Tudo feito na rua, na pacata Jaguapitã, terra dos berranteiros (fabricantes de berrantes). E dos balaieiros. Certa vez, estive lá e fiquei encantado com a habilidade das mãos daquele senhor que torciam taquara com facilidade.

Essas histórias são espécies de marco regional. Cada cidade tem seus personagens. Muitas vezes, não damos bola para eles. São pessoas comuns,
invisíveis a olhares superficiais. Mas basta enxergá-los para descobrirmos belas histórias e ricos perfis.

 

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