Eleições:

1ª Eleição (1952)

Zebra foi a surpresa da primeira eleição

Com quase 40 mil habitantes e a maior arrecadação de tributos da região em 1952, Maringá já teve muito jogo sujo e surpresas na primeira eleição

Luiz de Carvalho
[email protected]

Villanova, o primeiro prefeito 1952

A história política de Maringá começa com uma eleição em que pouco mais de 20% da população estavam habilitados a ajudar escolher o primeiro prefeito e os primeiros vereadores e apenas 15% compareceram às urnas. Entre quatro candidatos à prefeitura, a escolha foi pelo único que não tinha qualquer experiência política, não representava nenhum grupo importante e nem sequer imaginava um dia ocupar um cargo eletivo.Antes, por duas vezes, uns poucos maringaenses tinham ido às urnas escolher representantes do então distrito de Maringá para a Câmara de Mandaguari. Mas o 9 de novembro de 1952 foi especial. Depois de uns dois meses de acirrada campanha, com candidatos a prefeitos e vereadores percorrendo sítios e fazendas onde hoje ficam os municípios de Maringá, Floriano, Floresta, Iguatemi, Ivatuba, Paiçandu e Doutor Camargo, farta distribuição de telhas, madeira para construção de casas, remédios, óculos, dentaduras e até tecidos, xingamentos,  panfletos difamatórios, brigas em bares e outros fatos normais em eleições do passado, no domingo de sol forte e muita poeira homens vestiram ternos de linho branco, sapatos engraxados e chapéus de massa, e as mulheres escolheram vestidos de festa, chapéus e o melhor sapato para participar da história da cidade.Na cabeça das pessoas a eleição demorou muito mais do que uma campanha e a votação, pois a contagem dos votos acontecia em Mandaguari, sede da Comarca, e o resultado demorou dias para chegar ao conhecimento dos maringaenses.Maringá foi a única cidade paranaense a escolher prefeito e vereadores no dia 9 de novembro de 1952. As eleições municipais no Brasil foram dois anos antes. A cidade fundada no dia 10 de maio de 1947, data em que a Companhia Melhoramentos  Norte do Paraná lançou a venda de lotes, foi elevada a município em 14 de fevereiro de 1951 e obteve autorização do Tribunal Regional Eleitoral para realizar sua primeira eleição em novembro do ano seguinte.Apesar de ser a caçula da região, Maringá já vivia um ritmo de desenvolvimento que chamou a atenção de diferentes grupos. Afinal, em 1952 a população de Maringá já era maior do que a de qualquer dos municípios da região hoje, com exceção dela própria e Sarandi, e a arrecadação era maior do que a do município de onde foi desmembrado, Mandaguari.

Zebra contra a eliteA princípio, com o processo de organização dos partidos, vários nomes surgiram para disputar a prefeitura, quase todos ligados ao comércio, mas o governador Bento Munhoz da Rocha Neto tinha como seu homem de confiança em Maringá o comerciante Ângelo Planas, seu correligionário no Partido Republicano (PR) e membro de uma família que já tinha eleito dois vereadores na Câmara de Mandaguari. A Companhia Melhoramentos, dona da cidade, apoiou seu corretor, fazendeiro e industrial Waldemar Gomes da Costa, o Valdemar Barbudo, da União Democrática Nacional (UDN), que tinha sido candidato a prefeito na primeira eleição de Mandaguari; e a classe dos médicos, dentistas e outros profissionais liberais ficou com o médico Raul Maurer Moletta, do PSP, que já tinha sido vereador na Câmara de Mandaguari. O lançamento da campanha de Moletta contou com a participação do maior líder do PSP no Brasil, o médico Ademar de Barros, que foi governador de São Paulo e disputou a Presidência da República.A disputa parecia centralizada entre Planas e Barbudo, mas aí surgiu o azarão, o dono de serraria Inocente Villanova Júnior, que não era membro da alta sociedade de então, não morava e nem tinha empresa nas regiões valorizadas do Maringá Velho e do Maringá Novo. Diferente dos seus concorrentes, Villanova nunca tinha se envolvido em eleição, não sabia como organizar uma campanha, não tinha popularidade e morava na Vila Operária, onde residiam saqueiros, motoristas, carpinteiros, poceiros e outras categorias da massa trabalhadora e pobre da cidade.

Panfletos e mortes - Foi uma campanha muito difamatória, lembra o radialista Antonio Mário Manicardi, o Nhô Juca, que veio do interior de São Paulo contratado para fazer a locução nos comícios de Villanova e acabou sendo um faz-tudo na campanha. Em um comício na Praça das Charretes, hoje Napoleão Moreira da Silva, tinham vindo muitos caminhões trazendo gente das fazendas de café, e na hora do candidato falar, gente mandada pelos adversários cortou a luz (elétrica) e espalhou entre o povo panfletos falando coisas horríveis do Villanova. Outro fato marcante na campanha de Villanova foi um comício no distrito de Floriano. Pessoas de várias fazendas compareceram e, na volta, um caminhão cheio de eleitores tombou próximo a Floresta. Quatro pessoas morreram na hora e 38 foram internadas em uma época em que a cidade tinha poucos hospitais.Realmente Planas e Barbudo polarizaram a disputa nas ruas de Maringá e foram os mais bem votados na cidade. Mas Villanova correu por fora e venceu a eleição por conseguir maioria nos sítios de Floresta, Paiçandu, Floriano, Iguatemi, Doutor Camargo, Água Boa, Marilá e Ivatuba.Eleito, o prefeito tomou posse um mês depois em uma solenidade improvisada em uma concessionária de veículos na esquina das avenidas Brasil e Paraná e no dia seguinte começou a trabalhar em uma sala de 6 metros por 8, na Avenida XV de Novembro. Todo o patrimônio da prefeitura para o prefeito iniciar o trabalho se resumia a duas mezinhas, quatro cadeiras de madeira e algumas enxadas, enxadões e machados usados para derrubar árvores onde hoje é o centro da cidade. A primeira Câmara, da qual dois terços dos vereadores eram contrários ao primeiro prefeito, foi composta por dois advogados e sete comerciantes.

8.618 era o número de eleitores do município
2.805 eleitores não compareceram
5.813 pessoas votaram na primeira eleição 
5.606 votos bons foram apurados

 

Nome Partido Votos %
Inocente Vilanova Júnior PTB 1.871 32,19
Valdemar Gomes da Cunha UDN 1.725 29,67
Angelo Planas PR 1.707 39,37
Raul Maurer Moletta PSP 303 5,21
Brancos 96 1,65
Nulos 111 1,91
Total 5813 100

2ª Eleição (1956)

Viola na mão e pés sobre a mesa

O eleitorado 'reprovou' todos os vereadores da primeira legislatura, promovendo 100% de renovação

‘Caboclo violeiro’ vence em 1956

Américo Dias Ferraz ficou rico com o negócio do café, mas não perdeu o jeitão do caipira. Esta talvez tenha sido sua principal arma para ganhar de lavada a segunda eleição municipal da história de Maringá, tripudiando sobre ninguém menos que Haroldo Leon Peres, advogado bem sucedido, professor e empresário que depois foi deputado estadual, deputado federal e governador do Paraná.Em 1956 Maringá já era uma das maiores cidades do Paraná e, impulsionada pela força da cafeicultura, comércio e prestação de serviço a população já passava de 70 mil habitantes, mais de 80% vivendo na zona rural, a estrada de ferro tinha chegado dois anos antes e por ela os novos moradores chegavam em grandes quantidades e saíam as milhares de sacas de café. Já não existiam muitos tocos de gigantescas perobas na Avenida Brasil e o lado norte da Avenida Colombo (na época chamada de Oficial), que não constava do projeto original da cidade, passava a ser ocupado, nascendo a Vila 7, Vila Progresso, Vila Santo Antonio e Morangueira.Enquanto Inocente Villanova Júnior era o primeiro prefeito, novas forças políticas foram se formando, principalmente por meio de instituições como a Associação Comercial, a igreja católica e os sindicatos de trabalhadores. Dois anos antes, nas eleições para a Presidência da República, governadores, deputados e senadores, a cidade teve candidatos e, embora ninguém tenha sido eleito,  alguns nomes passaram a ser considerados fortes para o pleito de 56.Um dos primeiros políticos da cidade, Ângelo Planas, derrotado na primeira eleição, voltou e as novidades foram o médico José Gerardo Braga, o comerciante Otávio Perioto e Haroldo Leon Peres, vindo do Rio de Janeiro, na época Capital da República. O comerciante Américo Dias, comprador de café, não era levado a sério.Quase analfabeto, Dias chegou a Maringá entre os primeiros pioneiros depois de levar uma vida como peão de fazenda no Estado de São Paulo, foi trabalhador braçal, vendedor ambulante, fez biscates e descobriu que tinha talento para negociar café, que era a base da economia da região. Começou a ganhar dinheiro, montou uma máquina de beneficiamento que existe até hoje e ficou milionário em cinco anos.Quando começou a campanha, um era o candidato do governador, outro do empresariado, outro da Companhia Melhoramentos, mas Américo não era de ninguém. Tanto que não contou com nenhum apoiador expressivo e seus comícios dependiam mais de seu palavreado atrapalhado do que de convidados. Leon Peres, advogado influente e temido orador, era apontado como um dos favoritos. Ele ainda não tinha sido eleito para cargo nenhum, mas, consciente de seu talento e potencial, desdenhou da simplicidade do oponente que ameaçava lhe fazer sombra e o chamou de caboclo violeiro, conta o historiador Reginaldo Benedito Dias no livro Da arte de votar e ser votado as eleições municipais em Maringá.As gozações dos mais instruídos o fizeram Américo reagir. Como era cerealista e conhecia os agricultores, foi para as fazendas falar com seus fornecedores e, de quebra, com a peonada. O jeito caipira que conservava ajudou-o a conseguir uma rápida identificação com o homem simples. Ele ia para os comícios com uma viola e nem sabia tocar direito, lembra o radialista Antonio Mário Manicardi, o Nhô Juca, testemunha ocular de todas as campanhas da história de Maringá e participante direto de várias delas. O Américo comprou uma motoniveladora e em cima dela fez toda a sua campanha. Arrumava as ruas e estradas que eram muito mal conservadas pelo município, tocava violão e cantava modas caipiras, conta Ademar Schiavone, autor do livro Memórias de um bom sujeito, um apanhado de crônicas escritas por ele sobre fatos da história maringaense. Perioto também era tido como um sujeito engraçado e dizem que foi dele a célebre frase estou aqui desde que tudo era mato, ali onde é a Praça Raposo Tavares eu comi muito veado. No dia 12 de novembro, na primeira eleição depois que Maringá passou a ser cabeça de Comarca, mais uma vez o candidato identificado com o povão superou os representantes da chamada primeira elite maringaense. E assim Maringá ganhou um prefeito que não se preocupava em vestir-se bem, colocava os pés calçados de botas sobre a mesa em que despachava e, quando chegavam comissões de moradores para pressioná-lo, pulava a janela e fugia pelos fundos da prefeitura.

 

Candidato Partido Votação %
Américo Dias Ferraz PSP 4.200 34,75
Haroldo Leon Peres UDN 2.844 23,53
José Gerardo Braga PSD-PDC 2.640 21,84
Ângelo Planas PR-PTB 1.648 13,63
Otávio Perioto PRP 305 2,52
Brancos 213 1,76
Nulos 238 1,97
Total 12088 100

 

Câmara 100% renovadaA segunda eleição de Maringá foi a única nos 60 de história das eleições na cidade em que não houve sequer uma reeleição na Câmara de Vereadores. Com o aumento da população entre 1952 e 1956, o número de cadeiras na Câmara Municipal aumentou de nove para 15, mas mesmo assim nenhum dos nove eleitos para a primeira legislatura conseguiu, na segunda, votos nem mesmo para se colocar entre os primeiros suplentes.Entre os eleitos em 1956 estavam o médico Luiz Moreira de Carvalho, que mais tarde seria eleito prefeito, e os dois primeiros representantes da colônia japonesa, Torao Taguchi, que era japonês legítimo e irmão de Kazumi Taguchi, que depois teve sete mandatos na Câmara, e Jorge Sato, que chegou a ser deputado estadual.

 

VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Alceu Hauare UDN 231
Aristino Flauzino Teixeira de Almeida
PSP 296
Bonifácio Martins
PR 167
Francisco Rodrigues de Melo PSP 246
Heitor Dutra da Silva PSD 497
João Luiz Fabre PSD 409
Jorge Sato UDN 305
Luiz Moreira de Carvalho PR 190
Maurício Donaldo Girardello PSD 273
Miravan Barlavento Salles PSP 216
Pedro Françozo PSD 285
Primo Monteschio UDN 233
Salvador Lopes Gomes PSP 502
Torao Taguchi PSD 265
Ulisses Bruder UDN 450

3ª Eleição (1960)

Nasce o primeiro grande líder

Com João Paulino a cidade entra em uma nova fase, tanto na política quanto no planejamento que permitiria à cidade crescer organizada

Em 1960, nascia um líder

Na visão dos historiadores e mesmo dos maringaenses mais antigos, as eleições de 1960 foram um divisor de águas na história da política e do desenvolvimento de Maringá com a escolha do promotor João Paulino Vieira Filho. Ele é considerado o primeiro e, possivelmente, o maior de todos os líderes políticos que a cidade já teve, além de ter sido o prefeito que organizou a cidade para o crescimento.O Brasil vivia uma nova realidade com o período de notável desenvolvimento do presidente Juscelino Kubitschek, que acabava de inaugurar uma nova capital federal em pleno cerrado goiano, pelas ruas circulavam os primeiros carros feitos no País e o povo vivia a embriaguez do primeiro título mundial de futebol, as emissoras de rádio só falavam de jogadores de nomes esquisitos, como Pelé e Garrincha, e de um novo ritmo musical que interessava aos jovens, um tal de rock and roll.Maringá também vivia um novo tempo, com a população crescendo a olhos vistos, novos bairros sendo criados e o povo sabendo do que se passava depois da popularização da Rádio Cultura e circulação de O Jornal de Maringá, o bispo dom Jaime Luiz Coelho falando na construção de uma nova catedral, o Campeonato de Futebol Amador atraindo milhares de pessoas nos finais de semana aos muitos campos de futebol e um grupo de empresários falando em criar um time de futebol profissional. Mas, na política, embora a cidade tenha eleito dois deputados estaduais em 1958, era indisfarçável a decepção com a administração municipal. O prefeito eleito quatro anos antes, Américo Dias Ferraz, embora tenha realizado obras importantes, estava entojado com o cargo, não conseguia mais permanecer no Gabinete e estava mais dedicado aos seus negócios particulares.O historiador Reginaldo Benedito Dias, em seu livro Da arte de votar e ser votado as eleições municipais de Maringá, relata que a imagem que ficou do final da gestão Américo Dias foi a da desorganização da máquina administrativa (greve, salários atrasados, endividamento), de litígio entre o Executivo e a Câmara e de desinteresse pela política. Havia o sentimento de ausência da autoridade, lembra o também historiador Artur Andrade.Três nomes apareceram com a promessa de dar um novo ritmo de crescimento à cidade. O advogado, empresário do setor de táxi aéreo e ex-vereador Jorge Ferreira Duque Estrada se inscreveu como candidato pelo PSP, o empresário Vanor Henrique, que apareceu com uma postura moralista, pela UDN unida ao PTB, e o promotor João Paulino Vieira Filho, do PSD, aliado do governador Moyses Lupion.Conta o político Túlio Vargas em sua biografia que JP, como passou a ser chamado, embora estivesse envolvido com a política desde a eleição anterior, foi escolhido pelo partido, que procurou a dedo o candidato ideal. Segundo Vargas, todos os caminhos levaram ao promotor João Paulino, cuja reputação de competência, seriedade e liderança obtinha a esmagadora preferência partidária. Vargas, que foi deputado estadual, cita que a proposta de JP na campanha era traduzir a cidade para o moderno, tirá-la do barro e da poeira, criar uma infraestrutura capaz de prepará-la para a expansão demográfica e humanizar-lhe o crescimento econômico e social. A pesquisadora Ivani Omura apresenta mais um fator favorável à candidatura JP: os partidos PRP, PR, PTN e PDC não tiveram candidatos próprios e apoiaram a candidatura do promotor.Nos últimos dias da campanha, a disputa estava afunilada entre João Paulino e Vanor Henrique e na apuração a diferença tinha sido de pouco mais de 300 votos. João Paulino, a exemplo dos dois antecessores na prefeitura, também perdeu em Maringá e só terminou eleito graças aos votos dos moradores nos distritos. Mas, pela primeira vez na história do município, o prefeito eleito teria maioria na Câmara de Vereadores.

Prefeito

Legenda

Votos

%

João Paulino Vieira Filho PSD 5824 39,6
Vanor Henriques UDN/PTB 5485 37,3
Jorge Ferreira Duque Estrada PST 2080 14,14
Brancos
806 5,48
Nulos 512 3,8
Total 14707 100

 

Terceira Legislatura - 14/12/1960 a 13/12/1964
VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Alceu Hauare PDC 267
Arion Ribeiro de Campos PSD 428
Bonifácio Martins PST 209
Carlos Alberto Borges FPD 546
Carlos Eduardo Bueno Netto UDN 241
Ermelindo Bolfer PDC 274
Joaquim Ferreira Dias PTB 281
Jorge Sato UDN 321
José Bendo PSD 258
Luiz Moreira de Carvalho FPD 339
Mário Clapier Urbinatti PSD 353
Olídio Augusto Barboza PSD 255
Ricardo Plepis PDC 294
Kazumi Taguchi PSD 523
Ulisses Bruder UDN 408

4ª Eleição (1964)

Quando o lambari engoliu o tubarão

O médico mineiro de jeito manso foi o único prefeito da história eleito com o apoio do antecessor, confirmando a liderança de João Paulino

Em 1964, 'lambari' vence tubarão nas urnas

O prefeito Luiz de Carvalho foi o primeiro (e único, até agora) eleito com o apoio de seu antecessor, o primeiro vereador a se tornar prefeito e o primeiro a ter um vice-prefeito eleito, além de, até então, o que conseguiu maior porcentual de diferença sobre o segundo colocado na eleição.

A eleição de 1964 foi a primeira a ter apenas dois candidatos à prefeitura, representantes dos principais grupos políticos da cidade, e foi também uma demonstração da liderança de João Paulino Vieira Filho, que naquele pleito suplantou o outro grande cacique da política local, o então deputado Haroldo Leon Peres.

O Brasil vivia os primeiros meses do regime militar, instaurado no primeiro dia de abril, e não elegeria presidente da República e governadores, assim a eleição ficou na dependência apenas das estratégias dos líderes locais.

Na análise dos historiadores, a vitória de Carvalho sobre o advogado Adriano José Valente dependeu muito da aprovação dos quatro anos de mandato de João Paulino e, principalmente, dos erros do grupo adversário.

JP, como era chamado o então prefeito, conseguiu tirar a cidade da desorganização deixada pelo seu antecessor, Américo Dias Ferraz, calçou com paralelepípedos parte da Avenida Brasil, acabou com os tocos da área central, terminou a construção da rodoviária iniciada por Ferraz, deu apoio ao esporte foi aí que nasceu o Grêmio Esportivo Maringá e sua apaixonada torcida e promoveu melhorias significativas em setores básicos, como Educação, Saúde e conservação das ruas e estradas rurais.

Mas, mais do que um realizador de obras, JP marcou sua passagem pela prefeitura por realmente comandar, contrastando com seu antecessor, que praticamente deixava o comando para outras pessoas. Ele visitava as obras, dava ordens e era duro quando não obedecido. Ademar Schiavone conta em seu livro de memórias que "a cidade mudou completamente. (...) Tinha quem mandava nela".

Foi o próprio João Paulino quem escolheu Carvalho como seu candidato e ainda costurou uma ampla frente com seis partidos.

Luiz Moreira de Carvalho, mineiro, era médico e logo após se formar na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba, mudou-se para Maringá no rol de chegada dos primeiros pioneiros. Segundo ele próprio, não gostava de política, a ponto de não lembrar-se em quem votou na primeira eleição da cidade, mas, como seu trabalho era diretamente com o povo humilde, logo tornou-se muito conhecido e na segunda eleição foi eleito vereador com 190 votos. Tornou-se um homem influente, foi presidente da Câmara e se reelegeu com 339 votos em 1960.

O advogado Adriano Valente, que já tinha sido secretário na prefeitura de Londrina, era tido como "um bom candidato", mas pagou caro pelos erros de seu grupo político. Primeiro, seu partido, a UDN, não aceitou coligação com outros partidos, segundo, o principal líder udenista, o deputado Aroldo Leon Peres, envolveu-se em uma discussão com o também deputado Túlio Vargas depois de ser desafiado para um debate em praça pública e respondeu que "eu não vou perder tempo com lambaris, quero mesmo é falar com os tubarões", como contou o jornalista e escritor A.A. de Assis.

Segundo Assis, os coordenadores da campanha de Carvalho deram divulgação às infelizes palavras de Leon Peres, relacionando o "tubarão" a Valente. Carvalho, com seu jeito mineiro de ser, foi comparado ao labari, peixinho inofensivo. Assim, na cabeça do povo simples, Adriano representava os tubarões, ricos e medalhões que exploravam o pobre labari, representado pelo povo. "Levei uma lambarizada", contou Adriana Valente sorrindo em uma entrevista décadas depois.

Primeiro vice

Paralelamente à eleição de prefeito acontecia, pela primeira vez na história, a de vice-prefeito. O nipônico Jorge Sato, também vereador, era candidato da UDN, fazendo parceria com Adriano. O empresário Ivo Assmann, vice-presidente da Associação Comercial e Industrial de Maringá (Acim), concorreu associado a Carvalho.

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
Luiz de Carvalho PDC-PSD-PTB-PR-PSP-PRP 7689 57,89
Adriano José Valente UDN 5005 37,69
Brancos 345 2,6
Nulos 242 1,82
Total 13281

100

 

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
Ivo Assmann PDC-PSD-PTB-PR-PSP-PRP 6767 50,95
Jorge Sato UDN 5474 41,22
Brancos 863 6,5
Nulos 177 1,33
Total 13281 100

 

Quarta Legislatura - 14/12/1964 a 31/01/1969
VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Antenor Sanches PDC 350
Antônio Mário Manicardi PSD 346
Ary de Lima UDN 488
Arlindo Planas PSD 405
Belino Bravin PDC 412
Décio Bragagnolo UDN 282
Elydio Conte MTR 265
Evaristo Pelegrino

PDC

487
José Carlos Rosas FPM 248
Kazumi Taguchi PSD 435
Midufo Vada PDC 400
Paulo Vieira de Camargo PSD 368
Primo Monteschio UDN 325
Renato Bernardi PDC 359
Silvio Barros FPM 260

5ª Eleição (1968)

Pé (de chinelo) no barro e olho no voto

O grito do animador Joe Silva tomou conta da cidade e um candidato que parecia improvável derrota a maior força da política maringaense

Pé de Chinelo vence em 1968

A eleição de 1968 deve ter sido saboreada pelo advogado Adriano José Valente com sabor de vingança. Afinal, ele derrotou nas urnas o maior líder político que a região de Maringá conhecia, o deputado federal mais bem votado do Paraná e que, pelas pesquisas da época, tinha 95% das intenções de voto para a prefeitura de Maringá. E, de lambuja, ainda abateu sozinho dois candidatos do partido do governo.

As eleições de 1968 foram as primeiras depois que o governo militar extinguiu os antigos partidos para separar todos seus apoiadores em uma sigla, a Aliança Renovadora Nacional (Arena), e a oposição permitida no Movimento Democrático Brasileiro (MDB). A campanha transcorria em meio a notícias de inexplicadas cassações de mandatos, confrontos armados entre forças governamentais e movimentos de esquerda, prisões arbitrárias, desaparecimento de pessoas e a morte do estudante Edson Luíz pelas forças repressivas.

De um lado estava o ex-prefeito João Paulino Vieira Filho, que já tinha demostrado sua capacidade para administrar e foi eleito deputado federal com a maior votação do Paraná. A Arena contava ainda com a liderança de Haroldo Leon Peres, também eleito deputado federal, e de dois deputados estaduais, Tulio Vargas e Jorge Sato, além da força do governador Ney Braga e três senadores. JP teria, no início da campanha, 95% da preferência dos eleitores no início da campanha, segundo pesquisas da época.

Do outro lado estava o advogado Adriano José Valente, que quatro anos antes tinha sido derrotado por Luiz de Carvalho e entrincheirou-se no MDB, que no pleito de 1966 elegeu, na região, apenas Renato Celidônio como deputado federal e o vereador Silvio Barros para deputado estadual.

E havia mais uma desvantagem para Adriano: a sublegenda, um artifício criado pelo governo militar para conciliar os interesses de todos os grupos dentro de seu partido. Assim, cada partido podia apresentar até três candidatos a cargos a prefeito, depois os votos eram somados e o que tivesse a maior votação seria eleito, no caso de o partido ser vencedor. Em Maringá, além do favorito João Paulino, a Arena tinha ainda a candidatura do empresário Ardinal Ribas. Já o MDB não conseguiu outro nome para somar com Adriano.

Pé-de-chinelo

Em entrevista a O Diário, Adriano contou que transformou a aparente desvantagem nas últimas semanas que antecederam a votação. "Enquanto meus adversários já contavam com a vitória, fui para as ruas, conversei com as pessoas nos bairros, fiz reuniões debaixo de lonas". A peregrinação do candidato e sua pequena equipe pelas ruas poeirentas logo levou os adversários a chamá-lo de pé-de-chinelo, fato que ele soube aproveitar para se identificar com o trabalhador comum, revertendo a imagem que deixara na eleição anterior, quando foi relacionado com um tubarão que tentava comer um lambari e acabou derrotado.

Quando começaram os comícios, que na época atraíam grande público para assistir as apresentações de cantores locais, Adriano contou com um trunfo e tanto: o radialista Joe Silva, oriundo da crônica esportiva, exímio criador de frases de efeito. Foi Joe quem popularizou o grito "Volte prá Brasília, deputado!", que entrou para o jingle de Adriano tocado nas ruas da cidade. Outra frase que, gritada por Joe, fez sucesso foi "Esta não deeeeeeu, Arena!"

"Nem sei como aceitei ir para uma disputa que parecia uma loucura. Eu mesmo achava impossível derrotar um mito como João Paulino, ainda mais que ele somaria os votos do Ardinal, mas na medida em que se aproximava o dia da eleição eu senti que minha aceitação só aumentava e a deles caía", contou Adriano. "No final, ninguém mais tinha dúvida e o grito de "volta pra Brasília, deputado!" tomou conta das ruas.

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
Adriano José Valente MDB 19471 54,3
João Paulino Vieira Filho ARENA 14415 40,2
Ardinal Ribas ARENA II 1044 2,9
TOTAL LEGENDA MDB 19471 54,3
TOTAL LEGENDA ARENA 15459 43,1
Brancos 327 0,9
Nulos 594 1,7
TOTAL 35851 100

 

Mulher entra na história

Os candidatos a vereador pelo MDB foram os mais bem votados, sobretudo o jovem advogado Wilson do Amaral Brandão, que somou quase 2,3 mil votos, o dobro do alcançado pelo candidato a prefeito Ardinal Ribas. Daquela Câmara saíram três deputados federais ¿ Brandão, Walber Guimarães e Ary de Lima ¿ e Antonio Facci se tornou deputado estadual.

Mas, o fato novo na formação da Câmara de 1968 foi a eleição da primeira mulher na história política de Maringá, a líder comunitária Sebastiana Costa Tobias, com 1,090 votos, mais do que o candidato a prefeito Ardinal Ribas.

Quinta Legislatura - 01/02/1969 a 31/01/1973
VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Alaydio Gaspar MDB 871
Anésio Carreira Arena 1164
Antonio Mário Manicardi Arena 823
Antônio Facci MDB 714
Antônio Pedro Assunção MDB 908
Antenor Sanches Arena 995
Ary de Lima MDB 1316
Egídio Assmann MDB 888
Kazumi Taguchi Arena 948
Leonardo Grabois MDB 1228
Midufo Vada Arena 758
Osvaldo Vieira Arena 958
Paulo Vieira de Camargo Arena 823
Sebastiana Costa Tobias MDB 1090
Tetuo Nishiyama Arena 869
Walber Souza Guimarães MDB 998
Wilson do Amaral Brandão MDB 2286

6ª Eleição (1972)

Candidato do MDB teve em seu palanque até os principais nomes da Arena e consegue a maior votação dos 60 anos de eleições em Maringá

Em 1972, Barros ganha com sobra

Pioneiro, o jovem empresário Silvio Magalhães Barros passou por todos os degraus da política antes de chegar à prefeitura. Foi participante de campanhas, suplente de vereador, vereador, deputado estadual e deputado federal quando em 1972 considerou-se capacitado para disputar o cargo de prefeito e conseguiu a maior vitória da história do município: 62% dos votos, porcentual jamais alcançado nas eleições de Maringá.

A campanha de Barros foi marcada também por ter no mesmo palanque os mais ferrenhos adversários do governo militar e os mais apaixonados defensores, entre eles os ex-prefeitos João Paulinho Vieira Filho e Luiz de Carvalho.

A acachapante vitória de Barros deveu-se muito a trapalhadas acontecidas nos bastidores da política envolvendo o prefeito Adriano Valente, que foi eleito por uma coligação de oposição ao governo militar, mas logo após assumir o cargo bandeou-se para o lado governista.

Adriano, que os historiadores consideram um dos melhores prefeitos que Maringá já teve, foi responsável pela implantação da Universidade Estadual de Maringá (UEM), criação do Parque do Ingá e muito contribuiu para a construção da Basílica de Nossa Senhora da Glória. Foi ele também quem ativou a Companhia de Desenvolvimento de Maringá, a Codemar, que rasgou 380 quilômetros de ruas e avenidas para levar água encanada à população.

O prefeito sempre pagou caro por sua ligação com o líder Haroldo Leon Peres, mas sempre foi fiel à antiga amizade. Quando Adriano chegou à prefeitura, Peres era deputado federal ferrenho na defesa do governo militar e acabou recebendo como prêmio a nomeação para o governo do Estado do Paraná. Tão logo assumiu, Leon Peres passou a arrebanhar para seu lado todos os prefeitos que foram eleitos pela oposição e Adriano Valente foi um dos primeiros a segui-lo, trocando o MDB pela Arena.

"Eu precisava estar ao lado do governo para conseguir as verbas que precisava para fazer uma boa administração. Pensei na cidade naquele momento", disse Adriano em sua última entrevista a O Diário.

Na eleição de 72, o prefeito apresentou como candidato à sua sucessão seu homem de ouro, o presidente da Codemar, Marco Antonio Lourenço da Silva, principal conselheiro do prefeito, que também havia ido para a Arena.

"Estávamos confiantes na vitória", contou Marco Antonio Correa a O Diário. O governador nomeado havia lhe assegurado que "com meu apoio, nem o papa ganha de você". O fato de estar ao lado do governo para atrair verbas era visto pelo grupo como um fator positivo para convencer o eleitorado.

Mas, na prática a teoria é outra. Ao irem para a Arena, Valente, Correa e seu grupo acabara entrando em uma seara que era comandada, na cidade, por João Paulino e a intromissão mexeu com os brios da classe empresarial. É claro que foi travada uma batalha nos bastidores pelo controle do partido no âmbito local. A eleição foi a oportunidade para a Arena mostrar que não aceitava Adriano e seu grupo e para o MDB se vingar da "traição".

A derrota, na realidade, começou de cima para baixo. O governador nomeado foi obrigado a renunciar, acusado de pedir vantagens financeiras ao empreiteiro Cecílio do Rego Almeida, dono da Construtora C.R. Almeida. João Paulino, Luiz de Carvalho, vereadores, empresários, líderes nos bairros decidiram que não apoiariam o candidato de Adriano.

O resultado foi um ajuntamento de forças para eleger Silvio Barros, que era duro crítico do governo militar, mas apresentou-se como a melhor solução da cidade naquele momento.

Não era dia de zebra

O empresário Egídio Assmann, dono da Casa Gaúcha e vereador, decidiu ser o candidato alternativo e, vendo a polarização entre Barros e Correa, tentou se divulgar como a zebra da eleição. Ele se aproveitou da popularidade da Loteria Esportiva e do animal popularizado pelos amantes do jogo do bicho ¿ zebra não existe no jogo do bicho, portanto é impossível pagar algum prêmio. "Vai dar zebra. Sim, vai dar Egídio" era o slogan da campanha.

No auge da campanha, os partidários do candidato zebra pintaram um burro com listras pretas e brancas para uma passeata, mas a tinta fez mal ao animal, que acabou morrendo, levando a candidatura de Assmann para o rol dos fatos pitorescos da política maringaense.

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
Silvio Magalhães Barros MDB 29218 62
Egídio Assmann Arena 1 8273 17,7
Marco Antonio Lourenço Correia Arena 2 7198 15,4
TOTAL LEGENDA MDB 29218 62,5
TOTAL LEGENDA Arena 15471 33.1
Brancos 791 1,7
Nulos 1257 2,7
TOTAL 46732 100

 

Clodimar na campanha

Na eleição de 1972 a Câmara de Maringá teria 21 vereadores, sete a mais do que no pleito anterior, e seis vereadores foram reeleitos, quatro deles iniciados pela letra "A" e dois representantes da colônia japonesa.

A vereadora Sebastiana Tobias, a primeira mulher eleita em Maringá, não ficou nem na suplência e o fato marcante foi a influência do garoto Clodimar Pedrosa Lô, que havia sido morto em uma cela da cadeia, espancado por dois policiais. Depois da morte de Lô, seu pai, Sebastião Pedrosa Lô, se vingou matando em plena Avenida Brasil o empresário Atílio Farris, que supostamente entregou o garoto aos policiais. O advogado Eli Pereira Diniz tornou-se celebridade em Maringá ao fazer a defesa de Sebastião e conseguir sua absolvição.

Por conta deste trabalho, amplamente divulgado, Eli se tornou vereador referendado por 3.995 eleitores, a maior votação para a Câmara até então. Ele conseguiu legenda para arrastar mais três vereadores.

Sexta Legislatura - 01/02/1973 a 31/01/1977
VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Anésio Carreira Arena 1231
Antenor Sanches Arena 1142
Antonio Bortolotto Arena 1246
Antônio Facci MDB 1817
Carlos Alberto de Paula MDB 1322
Clabel Marquesi Martins MDB 1012
Edi  Eri  Froeming MDB 2981
Eli Pereira Diniz
MDB 3995
Francisco Timbó de Souza MDB 629
João Waldecir Scramim Arena 1082
José Carlos Rosas Arena 1373
José Rodrigues do Nascimento MDB 833
Kazumi Taguchi Arena 2104
Leônidas Querubim Avelino Arena 2022
Midufo Vada Arena 1347
Osório Valter Pietrângelo Arena 2000
Paulo de Barros Campelo Arena 713
Paulo Vieira de Camargo Junior Arena 708
Philemon de Assis Vieira MDB 730
Tércio Hilário de Oliveira MDB 1145
Tercílio Men MDB 742

7ª Eleição (1976)

A volta do velho cacique

Em uma eleição sem influência da televisão e com os casuísmos do governo militar, o maringaense opta por um prefeito que já conhecia

Tradição reconduz João Paulino 1976

Silvio Barros foi o prefeito eleito com o maior porcentual de votos dos 60 anos de história das eleições em Maringá, mas foi também o que amargou a pior derrota na tentativa de eleger seu sucessor. O candidato apoiado por ele acabou em último lugar entre os seis que concorreram em 1976, na última eleição do bipartidarismo.

Concluída a contagem dos votos, viu-se que o maringaense decidiu apostar em um estilo já conhecido e trouxe de volta para a prefeitura o ex-prefeito João Paulino Vieira Filho, que tornou-se assim o primeiro político maringaense eleito para um segundo mandato na prefeitura.

Depois da derrota de 72 e o revés de 74 no âmbito nacional, quando o PMDB aumentou o número de deputados em quase todos os Estados, o governo militar não mediu esforços para fortalecer a Arena. Daí as eleições de 76 transcorreram debaixo do tacão da casuística Lei Falcão, que determinava que durante a campanha os partidos limitar-se-iam a apresentar, no rádio e na televisão, o nome, número, um breve currículo e a foto do candidato. Sem permitir a divulgação das ideias e plataformas, o governo militar impedia que as críticas da oposição às políticas governamentais tivessem alguma influência sobre o eleitorado.

O ex-vereador Francisco Timbó de Souza lembra que "tudo indicava que o MDB ganharia, mais uma vez, a prefeitura de Maringá". O partido era forte na cidade por ter o prefeito, além de ser uma espécie de refúgio de todas as correntes contrárias ao militarismo, principalmente as nascidas no bojo dos movimentos estudantis.

"O nome forte do partido era o advogado Horácio Raccanello, professor do Curso de Direito da UEM, excelente tribuno e grande estrategista, além de muito popular", lembra Timbó. "Horácio era o que havia de novo na política maringaense, que até aquela altura esteve nas mãos de mãos dos pioneiros", completa o ex-sindicalista Adenias Raimundo de Carvalho, um dos fundadores do MDB.

Mas, apesar de catalizador, Raccanello não tinha o apoio do prefeito Silvio Barros. Ao contrário, os dois eram ferrenhos adversários e as relações azedaram ainda mais quando, em uma histórica convenção municipal, o grupo do advogado derrotou de forma humilhante o grupo do prefeito.

Dividido, o MDB maringaense pela primeira vez se valeu do recurso da sublegenda. Silvio decidiu apresentar como seu candidato o vereador Antonio Assunção, o vice-prefeito Walber Guimarães, a esta altura deputado federal, também se lançou e a legenda foi fechada com Raccanello.

A Arena teve o deputado Luiz Gabriel Sampaio, apoiado pelo ex-prefeito Adriano Valente, o médico Said Ferreira e completou a legenda com a volta de João Paulino, que esteve afastado das disputas por ter se decepcionado com o trabalho de deputado federal. Sua candidatura foi uma cobrança do governador Emílio Gomes e do governo militar.

A eleição em que a TV e o rádio não tiveram qualquer influência foi decidida nas ruas e nos comícios e desde o começo ficou polarizada entre Raccanello e JP, ou seja, o que representava a novidade na política contra o representante da política vinda dos tempos dos pioneiros.

Venceu o político que os maringaenses já conheciam bem e JP tornou-se o primeiro prefeito a retornar ao cargo.

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
João Paulino Vieira Filho Arena 1 18535 27,4
Horácio Raccanello MDB 1 12025 17,8
Said Ferreira Arena II 11391 16,9
Luiz Gabriel Sampaio Arena III
11265 16,7
Walber Guimarães/Edi MDB III 8002 11,8
Antonio Assunção MDB II 3554 5,3
TOTAL LEGENDA Arena 41191 61
TOTAL LEGENDA MDB 23581 34,9
Brancos 985 1,5
Nulos 1766 2,6
TOTAL 67523 100

 

Elevador decide a disputa

A formação da Câmara nas eleições de 1976 foi marcada pela eleição da segunda mulher na história das eleições de Maringá, a professora Lizete Ferreira da Costa, mas as apostas eram de que o radialista Antonio Paulo Pucca, épico narrador esportivo das campanhas do Grêmio Esportivo Maringá, seria estouradamente o vereador mais bem votado, mas eis que o destino fez com que seu concorrente na disputa pela audiência radiofônica, o também radialista Ferrari Júnior, lhe roubasse a cena. Não porquê Ferrari fosse mais popular, mas por um azar da sorte ou sorte de um azar.

Quando os nomes dos candidatos acabavam de ser decididos, Ferrari estava no elevador do Edifício Hermann Lundgren, em frente à antiga rodoviária, quando o aparelho teve uma pane e parou entre um andar e outro. Sozinho e sem saber o que fazer, o radialista esperou, esperou e, depois de quase uma hora, decidiu sair por um pequeno espaço, mas nesse momento o elevador se movimentou para baixo e esmagou as duas pernas de Ferrari.

Resultado: Arleir Tilfrid, o Ferrari Júnior, passou meses no hospital, as pernas foram reconstituídas e todos os amigos e os nem tão amigos se encarregaram de fazer sua campanha. A Rádio Cultura AM, onde trabalhava, todos os dias fazia boletins de seu estado de saúde, Ary Bueno de Godoy, Teófilo Ruiz de Andrade e outros locutores colocavam emoção na voz e muitos ouvintes choravam.

Ferrari só esteve presente no último comício, assim mesmo em uma cadeira de rodas. Não subiu no palanque, fez seu emocionado discurso do chão. "Eu gostaria de estar aí, de falar com o senhor, com a senhora, abraçar seu filho, mas estou aleijado, não sei se um dia voltarei a andar", dizia. E pessoas iam às lágrimas.

Quando os votos foram contados, Ferrari teve sozinho 4.956 votos e sua legenda arrastou vários arenistas para a Câmara.

Sétima Legislatura - 01/02/1977 a 31/01/1983
VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Arleir Tilfrid Ferrari Júnior Arena 4956
Arlindo Teixeira Arena 846
Antenor Sanches Arena 818
Antônio Paulo Pucca Arena 2753
Carlos Alberto de Paula MDB 789
Edalvo Garcia Arena 954
Eli Pereira Diniz MDB 1601
Gilberto Erich Froeming MDB 885
Jesus Hernandes MDB 924
José de Jesus Previdelli Arena 897
José Maria Bernardelli MDB 1078
José Tadeu Bento França MDB 1093
Kazumi Taguchi Arena 1536
Lizete Ferreira da Costa Arena 853
Maurílio Correia Pinho Arena 1242
Midufo Vada Arena 1021
Nelson Abrão Arena 1195
Noboru Yamamoto Arena 1257
Pachoal Zaponi Arena 858
Ricardo Antôno Balestra MDB 800
Tércio Hilário de Oliveira MDB 844

8ª Eleição (1980)

O PMDB queria um prefeito da ala "autêntica", mas acabou elegendo um candidato oriundo da Arena

Estreante deixa PMDB surpreso

Na primeira eleição do pluripartidarismo, dentro do período que o governo militar chamou de "abertura política", o PMDB, que sucedeu o velho MDB, deu uma lavada de votos no partido que representava o governo central, o PDS. O interessante, porém, foram os movimentos dentro do próprio partido, que programou a vitória do advogado Horácio Raccanello Filho, mas acabou elegendo o médico Said Ferreira, egresso da Arena.

Nesta eleição os dois partidos do período do bipartidarismo, Arena e MDB, foram divididos em vários outros, muitos deles existentes até hoje.

Mais uma vez a eleição foi marcada por casuísmos empregados pelos militares para tentar salvar seu partido. O primeiro deles foi esticar em dois anos os mandatos de prefeitos e vereadores eleitos em 1976, com o argumento de fazer as eleições municipais coincidirem com as eleições de governadores, senadores e deputados federais e estaduais.

A pesquisadora Celene Tonella, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), escreveu que essa estratégia "era de interesse do governo por ser uma forma de beneficiar o partido da situação, que não se encontrava numa posição tranquila em inúmeros Estados por conta do desgaste dos governadores 'biônicos'".

Assim, em uma mesma cédula o eleitor deveria votar para governador, senador, deputado federal, deputado estadual, prefeito e vereador.

Isto não seria grande complicação não fosse outro casuísmo: eleição casada. Todos os votos deveriam ser no mesmo partido. Se acaso o eleitor escolhesse um vereador do PMDB, mas votasse em um deputado, por exemplo, do PT, todos seus votos estariam anulados.

O prefeito João Paulino, que foi contrário a um mandato de seis anos, repassou a prefeitura a seu vice, o engenheiro Sincler Sambati, e aceitou ser candidato a vice-governador do candidato Saul Raiz, indicado pelo governador Ney Braga e pelo Palácio do Planalto. A escolha de JP objetivava, com os votos casados, garantir a eleição de um prefeito do grupo.

Mas, um fato nos bastidores mudou tudo. O ex-prefeito de Londrina José Richa era candidato do PMDB ao governo e convidou Said Ferreira, seu amigo dos tempos de estudante, a trocar a Arena pelo PMDB e Said topou. Richa, assim como o deputado Álvaro Dias, candidato ao Senado, os deputados Hélio Duque, Alencar Furtado, Renato Bernardi e outros representantes da chamada ala progressista do PMDB apoiavam Horácio Raccanello, do grupo tido como autêntico do partido, e queriam Said para ajudá-lo a somar votos na legenda.

Só que a estratégia não foi combinada com os eleitores. Said, médico pioneiro que sempre teve muito contato com a comunidade carente, muitas vezes atendendo os previdenciários rejeitados em clínicas e hospitais, caiu no gosto do eleitorado e acabou eleito prefeito.

Como o voto era casado, Maringá deu 52,8% dos votos para o PMDB, ajudando a eleger Richa governador e Álvaro Dias senador, Renato Bernardi e Walber Guimarães deputados federais e os vereadores Ferrari Júnior e José Tadeu Bento França como deputados estaduais. A consolação do PDS foi eleger Gabriel Sampaio deputado estadual.

Presença feminina

A eleição de 1982 foi mais uma daquelas em que as mulheres não tiveram vez. Nenhuma candidata se elegeu para a Câmara e a vereadora Lizete Ferreira, eleita em 1976, não ficou nem na suplência.

Porém, o pleito foi histórico para as mulheres por, pela primeira vez, ter uma mulher disputando a eleição majoritária. A advogada Isaura Gonçalves foi candidata a vice-prefeito pelo Partido dos Trabalhadores (PT), na chapa encabeçada pelo médico Nelson Aiex.

CANDIDATO

LEGENDA

VOTOS

%

Said Ferreira PMDB I 26516 31,7
Horácio Raccanello PMDB II 18923 22,6
Aníbal Bianchini PDS III 13047 15,6
Ademar Schiavone PDS II 9179 11
Antonio Facci PDS I 8635 10,3
Egídio Assmann PTB 444 0,6
Nelson Aiex PT 350 0,4
TOTAL LEGENDA PMDB 45439 54,3
TOTAL LEGENDA PDS 30879 36,9
Brancos 4173 5
Nulos
2347 2,8
TOTAL 83632 100

 

Oitava Legislatura - 01/02/1983 a 31/12/1988
VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Anésio Carreira PDS 1188
Arlindo Teixeira PDS 1146
Ary Bueno de Godoy PMDB 1222
Claudinei José Vecchi PDS 1216
Edi  Eri  Froeming PMDB 1714
Euclides Zago Alexandre da Silva PDS 1079
João Batista Sanches PMDB 1243
Jorge Vieira do Prado PDS 1130
José Alves dos Santos PDS 2046
José Maria Bernardelli PMDB 1471
José Miguel Grillo PMDB 1848
Kazumi Taguchi PDS 863
Laurindo Hideu Otsuki Tomoike PMDB 1462
Lindolfo Luiz Silva Júnior PDS 1362
Massao Tsukada PDS 1415
Nereu Vidal Cezar PMDB 1714
Orides Angeli PMDB 1551
Paulo Mantovani PMDB 2101
Ricardo Antonio Balestra PMDB 1637
Tércio Hilário de Oliveira PMDB 1301
Valério Odorizzi PMDB 1612

9ª Eleição (1988)

Maringaense opta pelo novo

A nova geração da política local, com participação de políticos antigos, chega propondo renovação no jeito de administrar a cidade e preparar o futuro

Primeira disputa na democracia elegeu um jovem 1988

Os historiadores costumam dizer que a eleição de 1988 foi um divisor de águas na história da política maringaense por ter na disputa representantes de uma geração que nasceu na cidade e culminar na eleição do primeiro prefeito e vice-prefeito genuinamente maringaenses, ambos filhos de políticos da geração anterior. Além disto, foi a primeira vez que o eleitorado maringaense optou por votar na juventude, escolhendo um prefeito e um vice com menos de 30 anos.

"Uma das campanhas mais estúpidas a que Maringá assistiu", disse o pioneiro Ademar Schiavone, um dos personagens daquela eleição. Ele se refere principalmente à guerra travada entre ele e o candidato apoiado pelo prefeito Said Ferreira, o então secretário de Indústria e Comércio João Preis, com um show de denúncias que durou toda a campanha, desgastou os dois candidatos e os arrastou à derrota.

A eleição de 88, a primeira após o fim do regime militar, estava garantida para o PMDB, já que o partido dominava na cidade, dois anos antes elegeu dois deputados federais (Renato Bernardi e Tadeu Bento França), dois estaduais (Ferrari Júnior e Antonio Bárbara) e mais da metade dos votos da cidade para eleger Álvaro Dias para o governo, José Richa e Afonso Camargo Neto para o Senado.

Mas, depois de definidos os seis nomes para concorrer à sucessão de Said, as pesquisas mostraram outra tendência. O deputado estadual Lindolfo Júnior, muito popular na cidade por seu trabalho desde criança em uma emissora de rádio e também como apresentador da TV Cultura (RPC), despontou como favorito absoluto.

Antes do lançamento de candidaturas, aconteceram alguns balões de ensaio que não foram para a frente. Houve uma tentativa de trazer de volta o sempre líder João Paulino, com Aníbal Bianchini de vice. Chegou a ser articulada uma frente de partidos com PDS, PTB, PL, PFL, PDC e PDT. Mas o velho cacique alegou estar cansado da política e se recolheu. Pensou-se em Osmar Dias, irmão do governador, mas também não deu certo.

Por fim, Said lançou pelo seu PMDB o secretário João Preis, homem que nunca tinha passado pelo crivo do voto e dependia exclusivamente da força do prefeito. Pela oposição saiu Ademar Schiavone (PL), já testado na eleição anterior. Outros candidatos foram o ex-prefeito Adriano Valente (PDT), Miguel Grillo, por uma coligação que unia PSB, PCB e PC do B, o professor Norberto Miranda pelo PT e o engenheiro Ricardo Barros, pelo PFL.

Estranhamento, Lindolfo Júnior, que era uma promessa de renovação na prefeitura em um momento em que todo o País corria atrás de renovação na política, não apareceu entre os candidatos inscritos para prefeito. Por uma estratégia do governador Álvaro Dias e do prefeito Said Ferreira, o jovem deputado surpreendeu a cidade ao aceitar ser candidato a vice de João Preis. "Aos olhos da história de Maringá, não há exemplo mais nítido de alguém que deixou passar o cavalo encilhado", diz o historiador Reginaldo Benedito Dias, também participante daquele pleito como candidato a vice na chapa do PT.

Brigas e comprometimento

A televisão e o rádio foram decisivos nas eleições de 88. Logo no primeiro debate na TV, Schiavone apresentou um calhamaço de denúncias contra Preis e a campanha no horário gratuito foi marcada por troca denúncias e acusações de Schiavone contra Preis e de Preis contra seu algoz. Lindolfo Júnior, a esta altura como mero candidato a vice, também viu sua imagem corroer quando se questionava em que bases foi negociada sua candidatura favorita por uma vaga de vice.

Foi a briga dos dois candidatos que supostamente lideravam a preferência do eleitorado que beneficiou a terceira via. Com apenas 3% da preferência em pesquisa do Ibope divulgada em meados de setembro, Ricardo Barros, 29 anos, filho do ex-prefeito, ex-vereador e ex-deputado Silvio Barros, foi o candidato que melhor soube tirar proveito do horário na TV por dominar bem a linguagem dessa mídia. Com programas bem feitos e com longo tempo de exposição, ao invés de apresentar documentos contra esse ou aquele adversário, ele apresentava sua certidão de nascimento, boletins escolares, alistamento militar, diploma universitário, tudo feito em Maringá. Seu vice, o também engenheiro Willy Taguchi, filho do vereador Kazumi Taguchi, fazia o mesmo. Ao invés de brigas, eles preferiram mostrar seu comprometimento com a cidade e começaram a mudar os rumos da campanha.

"Ao se dirigir a uma massa indiferenciada de espectadores, recorreu a fórmulas simplificadas e genéricas, despossuídas de conteúdos programáticos", diz a pesquisadora Celene Tonella em sua pesquisa sobre as eleições de Maringá.

O mesmo Ibope que mostrou Ricardo com 3%, duas semanas depois mostrou que ele já tinha mais de 20% e em 15 de novembro ele foi o vencedor com quase 10 mil votos de diferença do segundo colocado.

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
Ricardo Barros PFL 38902 34,45
João Preis PMDB 29417 26,05
Ademar Schiavone APM 15929 14,11
Adriano Valente PDT 9871 8,74
Norberto Miranda PT 1211 1,07
Miguel Grillo FAP 641 0,57
Brancos 11640 10,31
Nulos 5303 4,7
Total 112916 100

 

Nona Legislatura - 01/01/1989 a 31/12/1992
VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Aldi Cesar Mertz PDT 1172
Antonio Carlos Pupulin PMDB 1550
Antonio dos Santos Soares PMDB 1091
Antonio Paulo Pucca PL 1093
Aristides Conteçotto PMDB 1023
Aristides Mossambani PMDB 1029
Dirceu Sato PFL 2129
Edith Dias de Carvalho PMDB 1237
Eduardo Acciette PDT 603
Euclides Zago Alexandre da Silva PDS 1330
Jacira Martins PL 812
Jamil  Josepetti PL 1348
Laércio Nora Ribeiro PTB 1021
Marco Antônio Araújo da  Rocha Loures PL 1261
Mário Massao Hossokawa PMDB 2042
Nereu Vidal Cezar PTB 1090
Nilson de Oliveira PMDB 2588
Paulo Mantovani PTB 1034
Ricardo Aparecido Maia Kotsifas PDT 1519
Kazumi Taguchi PFL 1070
Víctor Manoel Hoffmeister PMDB 1119

10ª Eleição (1992)

De volta ao passado

Sem clima de eleição, Maringá mais uma vez optou pela segurança de um prefeito cujo estilo e capacidade já eram bem conhecidos

Vitória de Said marca campanha previsível

O médico Said Ferreira tornou-se o segundo político a voltar à prefeitura de Maringá na eleição mais tediosa, sem oscilações e previsível da história política da cidade. Ele começou a campanha como franco favorito e terminou com mais votos do que a soma obtida pelos outros sete concorrentes.

Foi uma campanha sem grandes ataques e sem apresentações de grandes projetos. Nos últimos dias, a impressão que dava era a de que os adversários de Said já se davam por vencidos e não empreendiam mais grandes esforços para tentar alcançar o líder nas pesquisas.

De acordo com os analistas, a eleição de 1992 foi decidida muito antes da campanha. Said, que governou o município até 1988, tornou-se o principal crítico da administração de seu sucessor, principalmente quando Ricardo Barros deu início a um processo de privatização dos serviços públicos. O formato, que na realidade era uma terceirização, começou pela coleta de lixo, continuou com as escolas públicas e pretendia-se chegar aos postos de saúde, tudo duramente criticado por Said, moralizado pelo fato de ter sido prefeito e por, dois anos após deixar a prefeitura, ser eleito deputado federal.

Os projetos de Barros geraram polêmica na Câmara de Vereadores e foram combustível para mobilizações organizadas pelo Fórum Maringaense em Defesa do Patrimônio Público.

Mais lenha para a fogueira da oposição foi quando a prefeitura fez uma correção no valor do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) que desagradou ricos e pobres. Said foi o primeiro a dizer que, se eleito, acabaria com as "privatizações", baixaria o IPTU e devolveria o dinheiro de quem pagou demais.

O período da campanha coincidiu com o movimento pelo impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, que teve o apoio de Ricardo Barros para se eleger. Said, por outro lado, era duro crítico de Collor e votou pelo impeachment e não perdeu a oportunidade de apresentar nos programas do horário eleitoral sua imagem votando.

Campanha de "amadores"

A novidade da campanha foi o fato de todos os oito candidatos a prefeito, com exceção de Said Ferreira, serem novidade na política maringaense. Isto significa que, com exceção de Odilio Balbinotti, que tinha sido prefeito do município de Barbosa Ferraz, Said estava enfrentando amadores em política.

Said, que teve o representante da colônia japonesa Mário Hossokawa como vice, o promotor Joel Coimbra, que se notabilizou nas lutas contra as terceirizações da administração Barros e o aumento do IPTU, e o professor Anibal Moura, candidato do PT, eram os que se apresentavam como oposição à administração vigente, ao passo que Marco Antonio Rocha Loures (PL) e Miro Falkembach (PFL) tinham sido secretários da administração Barros e contavam apoio do prefeito. O engenheiro Walber Júnior (PSDB), filho do ex-deputado e ex-vice-prefeito Walber Guimarães se limitou a apresentar seus projetos e Balbinotti correu por fora, não atacou e nem defendeu e acabou com uma votação surpreendente, considerando-se que era novato na cidade. Assendino Alves Santana (PRP), fundador da Associação dos Inquilinos e Mutuários de Maringá, não tinha lastro político e fez uma campanha despretensiosa, colhendo também um resultado despretensioso.

Sem oscilações durante a campanha, o maringaense, que quatro anos antes votou pelo novo, preferiu ficar com o prefeito que já conhecia. Em seu livro "Da arte de votar e ser votado ¿ as eleições municipais de Maringá", o historiador Reginaldo Benedito Dias cita um comentário do articulista Verdelírio Barbosa: "O que se nota é que (...) o eleitor maringaense não quer mais saber de renovação. Parece que o eleitorado está com medo de mudar".

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
Said Ferreira PMDB 64713 50,2
Odilio Balbinotti PTB 22762 17,66
Joel Coimbra PDT 12142 9,42
Miro Falkemback PFL 8647 6,71
Anibal Moura PT 3517 2,72
Marco Antonio Rocha Loures PL 1989 1,54
Walber Guimarães Júnior PSDB 959 0,74
Assendino Santana PRP 580 0,45
Brancos 6537 5,04
Nulos 7077 5,49
Total 128923 100

 

Décima Legislatura - 01/01/1993 a 31/12/1996
VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Almeri Pedro de Carvalho PDT 575
Antonio Carlos Pupulin PMDB 1469
Antonio Preto Orelhinha Leal da Silva PDT 690
Belino Bravin Filho PFL 1386
Cesar Antonio Gualberto PFL 858
Edith Dias de Carvalho
PSDB 684
Emerson José Nerone
PT 1220
Fernando de Campos Barros Junior PDT 563
Francisco Chico Coutinho Neto PPR 719
João Alves Correa ¿ JOHN PMDB 933
José Carlos Valêncio PDS 1118
Kunihiro  Nitta PMDB 1501
Manoel Batista da Silva Junior PTB
Nereu Vidal Cezar PL 814
Nilton Tuller PFL 1729
Oscar Batista de Oliveira PMDB 1540
Ricardo Aparecido Maia Kotsifas PDT 722
Serafina Martins Carrilho PPR 743
Umberto Crispim de Araújo PMDB 1560
Valdir Pignata PP 866
Victor Manoel Hoffmeister PSC 1127

11ª Eleição (1996)

A bandeira da paz na política viabilizou a terceira via e um estreante derrotou os dois principais grupos políticos da cidade

Então estreante, Gianoto superou Silvio e Coimbra 1996

Jairo Gianoto nunca tinha sido candidato a nada e nem era considerado um líder político quando foi eleito prefeito de Maringá derrotando representantes da família Barros e do grupo liderado pelo então prefeito Said Ferreira, as duas forças mais significativas da política maringaense na época. A exemplo do que aconteceu com Said em 1982 e com Ricardo Barros em 1988, ele não estava entre os cotados para vencer, mas soube trabalhar nos erros dos adversários e oferecer com eficiência a opção da terceira via.

A eleição de 1996 deveria mostrar quem era o grande líder político de Maringá, se Ferreira ou Barros, disputa semelhante à que se verificava entre João Paulino e Haroldo Leon Peres em décadas anteriores. Mas os dois perderam, Ricardo teve que esperar oito anos para que alguém de seu grupo lograsse êxito na disputa da prefeitura e Said nunca mais ajudou alguém a se tornar prefeito.

Dessa vez inscreveram-se para a disputa nove candidatos, um recorde de postulantes na história política da cidade. Ricardo Barros, que estava acomodado como deputado federal, não quis concorrer, mas apresentou seu irmão, o engenheiro Silvio Magalhães Barros II. Joel Coimbra, que tinha sido derrotado na eleição anterior mas depois elegeu-se deputado estadual, foi o candidato de Said, com apoio ainda do governador Jaime Lerner; o PMDB apresentou Antonio Carlos Pupulin, presidente da Câmara de Vereadores, o PT participou com o advogado e empresário José Cláudio Pereira Neto e os demais foram o então presidente do Grêmio de Esportes Maringá Nilson Servo (PAN/PMN), o empresário Ary Jacomossi (PL), o engenheiro Antonio Picoli Sobrinho (PV) e, novamente, Assendino Santana (PRP). Gianoto não tinha experiência e nem apoio, mas teve a sorte de conquistar o deputado Marquinhos Alves para seu candidato a vice. O herdeiro do falecido deputado e radialista José Alves era tido como "bom de voto".

Iniciada a campanha, o nome do candidato de Said, o deputado Joel Coimbra, apareceu na frente e seguiu liderando, segundo as pesquisas de intenção de votos. Mas, o ungido de Ricardo, Silvio, reagiu e, de acordo com as pesquisas, polarizou com o adversário e ameaçava ultrapassá-lo na curva de setembro para outubro.

Sem apadrinhamento ou sangue de político nas veias, restou a Gianoto tentar se colocar como terceira via, mas para isso precisava algum argumento que chamasse a atenção do eleitorado, concentrado nas pendengas envolvendo os dois líderes da corrida eleitoral. Ele, então "atualizou, naquela conjuntura, o discurso de terceira via, traduzido, então, pela bandeira da 'paz política'", conta o historiador Reginaldo Dias. Seu discurso passou a ser o de que a cidade vinha perdendo espaço político por conta das desavenças e logo pode anunciar que recebia o apoio de gente de peso, como o ex-prefeito Adriano Valente, Osmar Dias, o senador Álvaro Dias, o vereador e representante da colônia japonesa Mário Hossokawa e tantos outros.

O acerto da tática do empresário foi perceptível e quando começou a receber ataques dos principais adversários ficou claro que ele já era uma ameaça.

No final, ficou claro que o eleitor maringaense mais uma vez desaprovava as intrigas e candidatos que, ao invés de mostrarem compromisso com a cidade, defendiam a força de seus grupos. Assim, os indicados do então prefeito Said Ferreira e do deputado federal Ricardo Barros foram superados por alguém virgem em política, cuja única eleição de que participou antes na vida foi para a presidência do Clube Olímpico.

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
Jairo Gianoto PSDB 48.888 34,55
Silvio Barros II PFL 31.081 21,97
Joel Coimbra PDT 27.934 19,74
Antonio Carlos Pupulin PMDB 11.404 8,06
José Cláudio Pereira Neto PT 10.597 7,49
Assendino Santana PRP 1.917 1,36
Ary Jacomossi PL 709 0,5
Nilton Servo PAN 529 0,37
Antonio Picoli Sobrinho PV 385 0,27
Brancos 1.518 1,07
Nulos 6.541 4,62
Total 141.504 100

 

A Câmara eleita em 1996 foi a que teve maior número de mulheres. Quatro vereadoras foram eleitas, entre elas Maria Arlene de Lima, filho do professor Ary de Lima, que foi vereador e deputado federal, e Bia Corrêa, primeira vereadora do Partido dos Trabalhadores.

O vereador mais bem votado foi o médico Manoel Batista da Silva Júnior, o Doutor Batista, que muito antes de ingressar na política já desenvolvia um trabalho junto às camadas mais carentes da comunidade e realizava palestras nas empresas sobre saúde. A boa votação o entusiasmou a voos mais altos e daí em diante não existiu eleição em Maringá sem a participação do Doutor Batista.

Décima Primeira Legislatura - 01/01/1997 a 31/12/2000
VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Aldi Cezar Mertz PDT 1.182
Basílio Baccarin PSDB 1.431
Belino Bravin Filho PFL 1.721
Bia Corrêa PT 948
Décio Sperandio PDT 1.412
Divanir Braz Palma PPB 1.769
Edith Dias de Carvalho PTB 1.140
João Alves Correa (John) PMDB 1.561
João Borri Primo PFL 1.908
José Maria dos Santos (Cabo Zé Maria) PT 1.480
Manoel Batista da Silva Júnior
PTB 3.534
Maria Arlene de Lima PMDB 1.247
Miguelzinho de Oliveira PDT 1.484
Pastor Nilton Tuller PSDB 1.236
Paulo Mantovani PPB 1.700
Roosevelt Carneiro de Freitas PTB 1.531
Serafina Martins Carrilho PSDB 2.315
Shinji Gohara PSDB 1.452
Shudo Yasunaga PL 2.021
Ulisses de Jesus Maia Kotsifas PTB 2.100
Valdir Pignata PPB 1.001

12ª Eleição (2000)

Luiz de Carvalho
[email protected]

Em 2000, a esquerda assumia o poder

Na eleição com número recorde de candidatos à prefeitura, em que pela primeira vez Maringá elegeu um prefeito de ideologia esquerdista, mais uma vez o eleitorado deixou claro que não quer controlando os destinos da cidade grupos que na campanha esquecem das ideias e dos projetos e tentam convencer por meio de agressões aos adversários. Mais uma vez também um candidato que não estava entre os favoritos soube aproveitar as desavenças entre os que polarizavam a campanha, viabilizou a terceira via e terminou como vencedor.

O advogado e pequeno empresário José Cláudio Pereira Neto foi escolhido pelo Partido dos Trabalhadores (PT) para disputar a prefeitura devido aos animadores 10 mil votos conseguidos quatro anos antes, quando o partido, que em sua primeira participação mal passou de 300 votos, ganhou certa visibilidade. A esperança dos petistas era marcar presença e crescer um pouco mais, não vencer o pleito. O favorito era o prefeito Jairo Gianoto, do PSDB do presidente Fernando Henrique Cardoso e o preferido do governador Jaime Lerner (PFL) e os esforços eram para decidir a eleição logo no primeiro turno.

Além do favoritismo do prefeito, as duas vertentes mais poderosas da política naquelas décadas, a dos Barros, liderada pelo deputado Ricardo Barros, e o PMDB de Said Ferreira tinham seus representantes. E havia uma força realmente nova, o médico Manoel Batista, que tinha sido o vereador mais bem votado da eleição anterior e, com dois anos de mandato, foi o candidato a deputado estadual de maior votação na cidade. Outro que aparecia como novidade era o vereador e presidente da Câmara Ulisses Maia.

Gianoto entrou na campanha tentando passar uma imagem de prefeito realizador, inaugurando obras de peso, como o Hospital Municipal, o Aeroporto, a Estação Rodoviária, além de asfaltamento e outras obras consideradas básicas. O objetivo de seus marqueteiros era convencer o eleitorado de que um prefeito realizador precisaria de mais tempo para fazer tudo o que a cidade precisava.

Mas, o prefeito não pareceu tão seguro do aparente favoritismo e sua campanha começou a atacar os candidatos dos grupos tradicionais. Cida Borghetti, do grupo dos Barros, e Silvio Name Júnior, do PMDB, eram os alvos de slogans como "a cidade não pode voltar ao passado". Mas, o troco viria logo e de forma contundente.

Devido ao número recorde de candidatos, as retransmissoras da Globo, Bandeirantes e SBT, os canais de televisão que tradicionalmente realizam debates eleitorais, não quiseram promover debates, mas o Canal 10, RTV, realizou aquele que talvez tenha sido o melhor e o mais importante debate da história política de Maringá. Segundo os analistas, o debate foi decisivo para destruir algumas candidaturas e mandar José Cláudio e Doutor Batista para o segundo turno.

"Eu vou fazer o que o senhor não teve peito para fazer: quebrar o monopólio da TCCC, porque eu não tenho o rabo preso com aquela empresa e nem com ninguém", disparou o jovem Silvio Name Júnior contra Jairo Gianoto. E foi mais longe: questionou o prefeito sobre o crescimento de seu patrimônio e perguntou sobre a compra de dois aviões pelo secretário Luiz Antonio Paulich, o homem forte da administração Gianoto.

O prefeito não teve muito como responder, mas revidou, dizendo que nunca cobrou da família Name "se ficou rica esbulhando o povo com cartório de protestos, tomando o dinheiro na marra". A temperatura subiu e o bate-boca continuava até nos momentos em que os dois ¿ que estavam sentados lado a lado ¿ não eram focados pelas câmeras.

Foi neste momento que a estrela petista subiu. José Cláudio fez de conta que não percebeu a desavença e aproveitou para enfatizar a necessidade de equilíbrio do homem público que se propõe a governar uma cidade do porte de Maringá. "José Cláudio tirou partido da desconfiança generalizada em relação à idoneidade e honestidade dos políticos profissionais. Ele, que nunca exercera cargo político-partidário, tinha como slogan 'Política de cara limpa'", lembra a pesquisadora Sonia Benitez. No final, o petista agradeceu a Deus "pela oportunidade de ter feito a campanha sem receber contribuições de empreiteiras, empresas de transporte coletivo ou qualquer outro grupo".

No dia seguinte, o jornal O Diário destacava em manchete que José Cláudio foi o vencedor do debate e que Name e Gianoto perderam a oportunidade de apresentar projetos, desperdiçando a chance com uma briga que desagradou aos eleitores.

O pesquisador Reginaldo Benedito Dias, que participou da coordenação de campanha do petista, conta que pesquisas internas do partido mostravam, antes do debate, que ele deveria chegar à eleição com uma votação em torno dos 10 mil votos da eleição anterior, porém, logo após o debate já estava embolado com os favoritos. "Dali em diante, manteve-se em linha ascendente".

Para completar o calvário do prefeito Gianoto, o Ministério Público denunciou e pediu a prisão do super secretário Paulich e poucos dias depois denunciou o próprio prefeito.

No final, José Cláudio, que soube aproveitar o momento para pedir equilíbrio, e Batista, que até então corria por fora, venceram o primeiro turno, deixando para traz um prefeito que sonhava vencer no primeiro turno e os representantes dos Barros e do PMDB.

Apanhando e crescendo

No segundo turno José Cláudio começou como favorito e isto levou Batista, até então pacificador, a fazer uma campanha de ataques, relacionando o petista com o MST e as invasões de propriedades, com aborto e casamento de homossexuais. Na coordenação da campanha do PT percebeu-se que quanto mais Batista batia, mais José Cláudio crescia na preferência do maringaense. No final, José Cláudio tornou-se o primeiro prefeito de esquerda de Maringá, com uma votação duas vezes e meia maior do que a do adversário. De lá para cá, o PT polarizou todas as campanhas eleitorais de Maringá.

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
José Cláudio PT 40663 24,27
Doutor Batista PTB 39281 23,45
Jairo Gianoto PSDB 35158 20,98
Cida Borghetti PP 22931 13,69
Silvio Name Júnior PMDB 13157
7,85
Ulisses Maia PPS 6371 3,8
João Cioffi PAN 872 0,52
Assendino PRP 649 0,39
Inês Leal PSTU 123 0,07
Brancos 3189 1,9
Nulos 5156 3,08
TOTAL 167550 100

 

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
José Cláudio PT 107320 69,7
Doutor Batista PTB 46659 30,3

 

Décima Segunda Legislatura - 01/01/2001 a 31/12/2004
VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Altamir Antonio dos Santos PST 1751
Antonio Carlos Marcolin PTB 1271
Aparecido Domingos Regini (Zebrão) PPB 1814
Belino Bravin Filho PPB 3579
Divanir Moreno Tozati PST 1520
Dorival Ferreira Dias PSDB 1902
Edith Dias de Carvalho PFL 1891
Edmar de Souza Arruda PFL 2756
Edson Roberto Brescansin (Beto) PT 1140
Geremias Vicente da Silva PTB 1467
João Batista Beltrame (Joba) PMDB 1715
João Alves Correa (John) PMDB 3833
José Maria dos Santos (Cabo Zé Maria) PSD 1805
Manoel Álvares Sobrinho PDT 1724
Márcia do Rocio Bittencourt Socreppa PSDB 2216
Mário Massao Hossokawa PSDB 2458
Marly Martin Silva PPB 1560
Paulo Mantovani PSDB 1874
Silvana Maria Ribeiro Borges PT 1581
Valter Viana PHS 1112
Walter Luiz Guerlles PL 4002

13ª Eleição (2004)

Prefeito que morreu dois anos antes da eleição teve o nome usado para decidir contra seu próprio partido

Estreante deixa PMDB surpreso

Depois de sucessivas derrotas desde 1992, quando Ricardo Barros devolveu a prefeitura a seu principal rival, Said Ferreira, o grupo dos Barros retornou ao comando do município em 2004, quando a principal força vigente não era mais a de Said e sim do Partidos dos Trabalhadores (PT). A vitória do engenheiro Silvio Magalhães Barros II foi a terceira da família e com mais de 100 mil votos ele se habilitou à cadeira que já foi de seu pai, nos anos 70, do irmão caçula nos 80.

O Partido Progressista (PP) de Barros havia eleito dois parentes próximos do candidato dois anos antes, o irmão Ricardo como deputado federal e a cunhada Cida Borghetti deputada estadual, mas além de enfrentar um candidato que já estava na prefeitura, tinha a desvantagem de a disputa ser contra um candidato do PT em um dos melhores momentos do governo petista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

No início da campanha, o candidato pepista não representava ameaça. Segundo pesquisa do Ibope divulgada no final de setembro, à frente estaria o Doutor Batista, apresentado como bola da vez depois de ter polarizado a eleição anterior e disputado o segundo turno, seguido do prefeito João Ivo Caleffi.

O historiador Reginaldo Benedito Dias, que fez um levantamento histórico das eleições de Maringá, acompanhou de perto os fatos que se passaram nos bastidores do PT e afiança que João Ivo, que era vice-prefeito e assumiu com a morte do prefeito José Cláudio Pereira Neto, teve problemas para firmar sua candidatura um ano antes das eleições, já que seu antecessor em tempos anteriores mostrou predileção pela candidatura de seu ex-secretário Enio Verri. Na disputa interna, venceu o prefeito, não sem deixar fissuras no partido.

Já com a campanha iniciada, o candidato Rogério Mello, do PTC, divulgou em seu espaço no programa eleitoral uma gravação sobre uma possível negociação entre integrantes do governo petista e representantes de donos de postos de combustíveis. A denúncia nunca foi comprovada, mas causou desgaste à candidatura de João Ivo, que teve que investir muito tempo no desmentido. Direitos de respostas e apreensão de material impresso no comitê do PTC foram mais alguns passos desse imbróglio.

Apesar de todos os ataques que recebeu, João Ivo foi o candidato mais bem votado da primeira rodada, garantindo-se no segundo turno com quase 50 mil votos. A surpresa ficou com o segundo lugar: o Doutor Batista, que aparecia liderando as pesquisas, foi superado por Silvio Barros por uma diferença de quase 6 mil votos.

Prefeito morto decide o segundo turno

Em sua tese de mestrado na área de Linguística da Universidade Estadual de Maringá (UEM), a professora Vera Lúcia da Silva observa que o horário eleitoral do segundo turno começou com João Ivo falando de propostas, ao passo que no espaço de Barros "a primeira semana (...) foi fortemente marcada por críticas à administração petista, ao mesmo tempo em que o candidato se apresentava como a solução para os problemas oriundos desse governo, ancorado em um currículo de alta performance e na tradição da família". "É bom a gente lembrar que o paço municipal, aonde o prefeito trabalha, tem o nome de meu pai, e coincidentemente é o mesmo meu", se esforçava o candidato do PP.

"A campanha também ficou marcada pela disputa do legado do ex-prefeito José Cláudio", diz Reginaldo Dias. João Ivo acreditava que ele, como candidato do mesmo partido de José Cláudio, seria o herdeiro político natural, mas uma irmã do falecido prefeito apareceu no programa de Barros na TV afirmando que não apoiava João Ivo "e a razão não é ideológica, mas pessoal".

Nos últimos dias da campanha, o uso do nome de José Cláudio pode ter sido decisivo. Membros da família do falecido prefeito, inclusive a mãe, apareciam em todos os programas de Silvio Barros pedindo que o povo votasse nele. Para completar o incômodo ao candidato do PT, o programa de Barros exibiu imagens captadas em um evento em que José Cláudio aparecia tecendo elogios ao pepista.

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
João Ivo Caleffi PT 49.706 27,07
Silvio Barros II PP 43.133 23,49
Doutor Batista PTB 37.557 20,45
Edmar Arruda PPS 25.919 14,11
Wilson Quinteiro PSB 10033 5,46
Joba Beltrame PV 7.799 4,25
Nilson Souza PSC 640 0,35
Rogério Mello PTC 156 0,08
Brancos 3.153 1,72
Nulos 5.520 3,01
TOTAL 183.612 100

 

Décima Terceira Legislatura - 01/01/2005 a 31/12/2008
VEREADORES
NOME PARTIDO VOTOS
Altamir Antonio dos Santos PR 3.467
Aparecido Domingos Regini (Zebrão) PP 4.898
Belino Bravin Filho PP 6.422
Dorival Ferreira Dias PSDB 2.079
Francisco Gomes dos Santos (Chico Caiana) PTB 2.584
Humberto José Henrique PT 2.112
João Alves Correa (John) PMDB 5.098
Márcia do Rocio Bittencourt Socreppa PSDB 2.531
Mário Massao Hossokawa PMDB 3.413
Mário Sérgio Verri PT 2.523
Marly Martin Silva DEM 3.336
Odair de Oliveira Lima (Odair Fogueteiro) PTB 2.342
Prof.ª Edith Dias de Carvalho PP 3.009
Valter Viana PHS 2.934
Walter Guerlles PR 4.809

14ª Eleição (2008)

Uma estratégia na montagem da coligação deu ao prefeito mais de 100 candidatos a vereador trabalhando para reelegê-lo no primeiro turno

Luiz de Carvalho
[email protected]

Maringaenses em colégio para votação, em 2008; reeleição, na primeira vez em que a Justiça permitiu que prefeitos voltassem à disputa

A maior eleição da história de Maringá em número de eleitores e de candidatos fez do engenheiro Silvio Magalhães Barros II o primeiro prefeito reeleito, o único a vencer no primeiro turno e ainda com uma votação que o tornou o segundo prefeito mais bem votado da história da cidade, superada apenas pela votação recorde obtida pelo pai dele, Silvio Barros, em 1972.

O que pareceu uma eleição fácil foi na realidade resultado de uma estratégia urdida nos bastidores e que passou despercebida pela maioria dos eleitores e até mesmo pelos adversários do grupo vencedor. A coligação vencedora foi construída de uma maneira que ampliou o número de candidatos a vereador, aumentando assim a quantidade de pessoas trabalhando para o candidato a prefeito por interesse pessoal. Se seguisse o modelo tradicional, com coligação na proporcional e na majoritária, Barros teria 23 candidatos à Câmara, mas como vários partidos não se coligaram nas proporcionais, saindo de dois em dois, o candidato contou com aproximadamente 110 candidatos a vereador trabalhando por sua reeleição.

O radialista Ronaldo Nezo, da Rádio CBN, considerou esta "mais uma jogada e tanto do articular do grupo político, o deputado Ricardo Barros". O ex-vereador Antonio Mário Manicardi esteve na campanha vitoriosa e acompanhou todos os movimentos nos bastidores. "No começo, líderes dos partidos e candidatos a vereadores estranharam a estratégia e chegaram a achar que algumas coligações não teriam votos suficientes para eleger alguém e candidatos à Câmara poderiam ser prejudicados. Mas o resultado provou o contrário".

Além dos sete adversários, Barros durante a campanha teve que enfrentar também processos na Justiça. O juiz da 66ª Zona Eleitoral, Airton Vargas da Silva, aceitou os argumentos do Ministério Público, que citou nove processos por improbidade administrativa em que o prefeito era réu na época. Ele tinha sido condenado um ano antes por supostamente usar o carro e um motorista da prefeitura para levar seu filho à escola e também respondia por irregularidade em licitação, gastos com publicidade e promoção pessoal com dinheiro público. O candidato à reeleição teve que recorrer a instâncias superiores da Justiça para garantir o direito de disputar a eleição.

A campanha de 2008 colocou o prefeito de frente com quatro adversários que já lhe eram conhecidos do pleito anterior e três estreantes. O ex-prefeito João Ivo Caleffi, com quem disputou o segundo turno quatro anos antes, tinha trocado o PT pelo PMDB, o advogado Wilson Quinteiro, o médico Doutor Batista e mais Rogério Mello, mas o adversário mais significativo acabou sendo o economista e professor universitário Enio Verri, que dois anos antes havia sido eleito deputado estadual.

Alguns fatos ocorridos antes tornaram ainda mais fácil a reeleição, como a insistência de João Ivo em disputar novamente a prefeitura. O diretório municipal do PT considerava que se quando era prefeito ele não foi páreo para Barros, sem a prefeitura sua chance seria ainda menor. Sem espaço no partido, ele aceitou o convite do governador Roberto Requião para ir para o PMDB, já que o partido, que já foi o mais forte de Maringá, estava tão debilitado que nem teve candidato próprio em 2004.

A candidatura de João Ivo não serviu para reerguer o PMDB, mas fez mais mal ainda para sua própria carreira. O candidato que teve quase 50 mil votos no primeiro turno do pleito de 2004 agora sem a militância petista em 2008 não conseguiu somar 13 mil votos, ou seja, um quarto da votação anterior, apesar do apoio do governador Requião e do vice-governador Orlando Pessuti.

O médico Manoel Batista, o Doutor Manoel, que disputava a prefeitura de Maringá pela terceira vez, ficou com 10 mil votos, 10% do alcançado pelo prefeito reeleito e longe dos 40 mil votos de quando polarizou a eleição com o petista José Cláudio em 2000.

CANDIDATO LEGENDA VOTOS %
Silvio Barros PP-PDT-PSL-PR-PRTB-PHS-PRP-PSDB 1-4.820 57,04
Enio Verri PT-PV-PC do B-PCB-PSC-PSDC 40.226 21,89
Wilson Quinteiro PSB-DEM 14.457 7,87
João Ivo PMDB-PTN 12.610 6,86
Dr. Batista PPS-PMN-PTB-PRB-PTC 10.198 5,55
Ana Pagamunici PSTU 1.195 0,65
Claudemir Romancini PSOL 253 0,14
Rogério Mello PT do B 0 0
Brancos 4.248 2,18
Nulos 6.574 3,38

 

CANDIDATO PARTIDO VOTOS
Wellinton Andrade Freitas PRP 4862
Belino Bravin PP 4265
Flávio Vicente PSDB 4250
Humberto Henrique PT 3681
Heine Maciera PP 3243
Evandro Júnior PSDB 3220
Mário Verri PT 3077
Mário Hossokawa PMDB 3002
Aparecido Domingos Regini (Zebrão) PP 2921
Manoel Álvares Sobrinho PCdoB 2791
Marly Martin DEM 2180
Carlos Eduardo Sabóia PMN 2083
João Borri Primo PMN 1995
Luis Carlosd Clóvis PRP 1820
Paulo Soni PSB 1551

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