• "Kit aborto" é vendido por até R$ 300 no Centro

  • Carla Guedes

Cinco comprimidos por R$ 500, mas com "jeitinho" podem ficam por R$ 300. São os valores que uma mulher pode pagar em Maringá para interromper a gravidez.

O remédio em questão é o Cytotec, abortivo proibido no Brasil, mas disponível ilegalmente à população. Em Maringá, é possível encontrá-lo no Centro, nas imediações da Rodoviária Velha. Consegui-lo é fácil.

A reportagem tentou e encontrou um homem, na Rua Joubert de Carvalho, que informou que um conhecido vendia o medicamento, sem saber que a interessada era jornalista. A conversa com o intermediador foi rápida e discreta. "Conheço um cara que vende (o Cytotec)", disse. "Dá o seu telefone que ele te liga."

O vendedor cumpriu o prometido. No dia seguinte, o celular tocou por volta das duas horas da tarde. Na visor do aparelho, apareceu a mensagem: número desconhecido. O homem pediu R$ 500 por cinco pílulas do abortivo.

"O pagamento é à vista e não adianta pechinchar." Tem desconto? "Não dá; é arriscado trazer e por isso tenho que cobrar caro."

O vendedor informa que compra o medicamento em uma farmácia no Paraguai, onde a comercialização é livre, e que não é necessário encomendá-lo porque há cartelas à pronta-entrega.

A compra não é fechada naquele dia. Diante disso, o vendedor ameaçou passar o produto para outra pessoa, mas em seguida concordou em dar um dia de prazo e sinalizou até um desconto de R$ 200, mas a compra do abortivo não chegou a ser finalizada.

O Cytotec foi lançado no Brasil em 1984 para tratamento e prevenção de
úlceras. O princípio ativo do medicamento é o Misoprostol, que em mulheres provoca contrações uterinas que levam ao aborto.



O efeito colateral tornou o Cytotec o abortivo mais popular do País ao ponto de, em 1998, o Ministério da Saúde restringir a venda do produto a hospitais credenciados.

O médico ginecologista João Batista Ruggeri explica que, nos hospitais, o Misoprostol é usado para expulsar fetos mortos e conseguir dilatação do colo uterino durante o trabalho de parto.

Reação

O remédio é contraindicado para mulheres que já tenham feito cesáreas, que tenham cicatrizes uterinas pela retirada do mioma e para gestantes com infecção e com suspeitas de gravidez nas trompas.

"O Misoprostol é um medicamento excelente em caso de aborto retido, mas tem de ser usado somente em hospitais", alerta o médico. "É totalmente contraindicado fora da unidade hospitalar."

De janeiro a abril deste ano, 72 mulheres foram internadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em Maringá, para tratamento de complicações resultantes de abortos. Os tratamentos pós-aborto no município custaram R$ 16 mil ao SUS.

Em um ano ¿ de abril de 2009 a abril de 2010 ¿, o governo federal gastou R$ 62.805,49 com tratamento pós-aborto e internou 267 mulheres na rede pública. Em todo o Paraná foram 9.241 internações ao custo de R$ 2 milhões.

As estatísticas incluem os abortos espontâneos, por razões médicas e ilegais. A maioria das mulheres que abortou ¿ 43% ¿ tinha entre 20 e 29 anos.

Apreensões
A Polícia Federal apreendeu, no ano passado, 50 cartelas do abortivo na região de Maringá. Em 2010 foram apenas duas. Os importadores, presos em flagrantes, informaram à polícia que compram o remédio no Paraguai para levá-los ao Rio de Janeiro e a São Paulo. Nenhum disse que iria vender as cartelas em Maringá.

O delegado-chefe da Polícia Federal, Donizete Tambani, reconhece que o volume de apreensões do Cytotec é baixo na região.

"É uma mercadoria difícil de apreender e as pessoas arrumam artifícios para não serem pegas." O delegado diz que as cartelas normalmente são transportadas escondidas entre mercadorias trazidas do Paraguai. Os pontos de compra mais próximos de Maringá são Ciudad del Este e Salto del Guaira.

Quem vende distribui e importa medicamentos contrabandeados, como o Cytotec, comete crime, cuja pena é de 10 a 15 anos de reclusão e multa.

Permitido
O aborto é permitido no Brasil em duas circunstâncias: quando a gravidez oferece risco de vida para mãe e em caso de estupro. É crime fazer aborto que não se enquadra em nenhuma dessas situações. A pena varia de um a dez anos de reclusão.

Ainda este ano, o Supremo Tribunal Federal deve decidir sobre a permissão da retirada do feto em casos de anencefalia (má-formação que impede o desenvolvimento do cérebro).

O Estatuto do Nascituro, lei que garante proteção aos embriões, deve ser votado no Congresso. Se aprovado, proibiria o aborto em qualquer contexto.

Registros
6 mortes em consequência de abortos ocorreram entre 1990 e 2009 na região.


Você é a favor ou contra o aborto?

"Sou contra em qualquer situação. Se a pessoa fez o filho, tem que assumir"
João Paulo Moura
Vendedor



"Sou totalmente contra. É injusto tirar a vida de um ser
humano"
Leorides Denardo
Contadora



"Sou contra para qualquer caso. Fazer aborto é crime"
Alan Diego
Oficial de manutenção

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