• Concreto à base de cana

  • Luiz de Carvalho
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A cinza resultante da queima do bagaço da cana-de-açúcar, as garrafas de refrigerantes e o óleo de cozinha saturado, três dos resíduos que mais causam prejuízos à natureza, contaminando rios, indo para os lixões ou mesmo espalhados nos quintais, poderão ser aplicados no setor da construção civil, substituindo integralmente o cimento, a areia e até a água.

É a conclusão de um projeto de pesquisa do Departamento de Química da Universidade Estadual de Maringá (UEM), em fase de registro de patente.

A novidade foi apresentada durante a 5ª Mostra Tecnológica, realizada em julho no Parque Internacional de Exposições Francisco Feio Ribeiro, um dos eventos paralelos à Feira Metalmecânica, pela coordenadora do estudo, professora doutora Eurica Nogami, que atua na Análise de Traços e Química Ambiental.

Ela desenvolve pesquisas com várias misturas para substituir o cimento. A que mais chamou a atenção de empresários do setor, no entanto, foi a que aproveita as cinzas que resultam da queima do bagaço da cana-de-açúcar, usado na produção de energia elétrica.

Eles se mostraram interessados na entrada da nova argamassa no mercado por acreditarem que ela poderá substituir facilmente o concreto tradicional por ter custos bem inferiores ao do produto tradicional.


Testes

A pesquisa foi desenvolvida em 2007. Desde então, os blocos feitos com a mistura de cinza, garrafa pet e óleo usado estão ao relento como forma de teste. O objetivo da professora Nogami é verificar se eles resistem às variações do tempo, principalmente, à chuva e ao sol intenso. Três anos depois, as peças permanecem iguais ao primeiro dia.

De acordo com a professora do Departamento de Química, existem em outras universidades brasileiras estudos sobre o aproveitamento da cinza oriunda do bagaço de cana, mas em todos eles o uso do resíduo é parcial.

"Na nossa pesquisa, testamos diversas porcentagens até substituirmos integralmente a areia e o cimento", explica a pesquisadora. Os porcentuais e outros produtos que foram acrescentados em pequenas quantidades à fórmula só serão revelados depois que a UEM conseguir registrar a patente do novo produto.

Antes da fase de registro, a novidade passou por uma etapa de testes em outros departamentos da universidade, nos laboratórios do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e na empresa Contronorte, quando demonstrou alta resistência e baixíssima absorção de água, o que significa que poderá ser usado para a produção de vigas sem o risco de corrosão, tijolos, placas, blocos e telhas.

"Não restam dúvidas de que essa argamassa poderá substituir o concreto comum, mas a grande vantagem é ser um produto ecologicamente correto, que retira da natureza um passivo altamente prejudicial que se acumula ano a ano", ressalta a professora.

Só nesta safra, vão sobrar na natureza 3,8 milhões de toneladas de cinza de bagaço das 664 milhões de toneladas de cana a serem colhidas, e 4,7 bilhões de garrafas de refrigerantes, das 9 bilhões que serão fabricadas até dezembro. Isso, citando apenas a produção e o consumo no Brasil.

Atualmente, a coordenadora do projeto trabalha com a professora Luiza Helena Costa Dutra Souza, do Centro de Tecnologia do Departamento de Engenharia Mecânica da UEM, na tentativa de desenvolver equipamentos que possibilitem a moldagem do material e a produção em larga escala. Após isso, serão procuradas parcerias com a iniciativa privada para o ingresso no mercado.


Subproduto
1/4 da safra de cana-de-açúcar vira bagaço, que é aproveitado na produção de energia elétrica.

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