• Fabricação de torneiras polui ribeirão com metais pesados

  • Vinícius Carvalho
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Efluentes industriais com altos níveis de me-tal pesado estão sendo lançados em rios e provocando a morte de animais em Loanda, município com 20 mil habitantes. A 157 km de Maringá, Loanda é o segundo maior polo fabricante de torneiras do País.

Produtores rurais afirmam ter perdido dezenas de animais por envenenamento - o gado bebia água de um rio que recebe efluentes industriais - mas por medo de retaliação, numa cidade onde quase todos se conhecem, os pecuaristas preferem não revelar seus verdadeiros nomes.

O produtor José Gomes (nome fictício) tem uma pequena propriedade cortada pela canaleta de concreto que serve como meio de descarga de efluentes para indústrias de metais sanitários.

Ele conta que, há 40 dias, perdeu a sexta vaca leiteira, que havia bebido água do Ribeirão Tamandueté, afluente do Rio Ivaí.

Produtor mostra ossada de vaca que bebia no
Tamandueté: contaminado

"É sempre igual: elas começam a definhar e depois de algumas semanas, morrem. Mesmo com remédios e cuidados veterinários, não consegui fazer com que os animais voltassem a engordar", conta o sitiante, que da criação de gado, galinha, porco e do cultivo de hortaliças e mandioca, extrai o sustento para a mulher, filhos e netos.

O prejuízo calculado pelo produtor já passa de R$ 10 mil. "Eu ainda estou pagando o empréstimo no banco que tomei para comprar essas vacas, sem contar com o lucro que deixei de ter com o leite", afirma o produtor, que interrompeu a extração do leite quando percebeu que a doença das vacas poderia estar relacionada a envenenamento. As ossadas dos animas mortos ainda estão no pasto do produtor.

 

Cobre e chumbo

A análise química de uma amostra de água colhida na canaleta de descarga das indústrias aponta que os efluentes contêm níveis de metal pesado acima do permitido pela resolução 357/05 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que disciplina a emissão de descargas industriais.

O exame laboratorial constatou a presença de 2 miligramas de cobre por litro - 100% a mais do que é permitido pela legislação ambiental. O nível de chumbo era de 0,462 mg/l - apenas 0,038 mg/l abaixo do limite de 0,5 mg/l.

Mesmo a análise química de uma outra amostra de água, coletada num trecho do rio acima do local onde há a descarga da canaleta, revelou a presença de metais pesados, especialmente de chumbo, em níveis acima do permitido pela mesma resolução do Conama. Nesse exame, foi constatado 0,14 mg/l de chumbo, quando o parâmetro para águas doces é de 0,033 mg/l.

No dia da coleta, os efluentes apresentavam coloração esverdeada. Segundo os produtores rurais da região, a água às vezes tem coloração amarelada ou azulada, dependendo da prevalência de determinado metal.

Fábrica de Loanda: banho de peças é feito em ácidos e
metais pesados

Além do cobre e do chumbo, as indústrias de fabricação de torneiras utilizam níquel e aço no processo de cromação e douração - que consiste em banhar as peças em soluções de água com ácidos e metais pesados, para o embelezamento dos produtos.

A reportagem não solicitou análises químicas de níquel e aço em nenhuma das duas amostras de água.

 


Cancerígenos

De acordo com a médica Áurea Eleutério Pascalicchio, doutora em Saúde Pública do Instituto de Saúde de São Paulo e autora do livro "Contaminação por Metais Pesados: Saúde Pública e Medicina Ortomolecular", a presença de metais tóxicos no corpo pode causar uma ação imunossupressora - redução da eficiência do sistema de defesa do organismo.

Os metais também tendem a competir em locais de fixação de enzimas, bloqueando ou inibindo a ação destes agentes indispensáveis ao metabolismo. Por fim, os metais são capazes de alterar estruturas celulares, principalmente nas membranas das células e as estruturas proteicas, como a cadeia de DNA.

O pecuarista e produtor rural Ângelo Assis - o nome também é fictício - comprovou a contaminação por meio de testes laboratoriais. Ele encomendou uma necropsia em um dos animais mortos e constatou altos níveis de chumbo no sangue.

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"Ainda tenho alguns animais separados que estão emagrecendo, devido ao mesmo problema. Já gastei mais de R$ 5 mil com veterinário, mas não tem como salvá-los", afirma.

Por conta dos altos níveis de descarga de efluentes no Tamandueté, a vida aquática está praticamente extinta. "Há dez anos, eu pescava até traíras no rio. Hoje, eu dou um carro zero quilômetro para quem conseguir encontrar um lambari sequer", comenta. O lambari é base de alimentação para peixes maiores e carnívoros.

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Comentários

1 comentários

  • welza willers de alcantara
  • | 11/07/2010 15:52:34
  • Uma lástima esta notícia! vale perguntar ao sindicato dos metalúrgicos de Loanda, Como está a segurança dos trabalhadores do setor?

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